Meu segundo vídeo do Canal Desconstrução, no YouTube. Assista!
Faço uma introdução às relações sociais de gênero, presente nos demais vídeos que já gravei ou que pretendo. Discuto o conceito de sexo e gênero, tentando diferenciá-los e mostrando a importântica dessa diferença para os estudos das relações sociais.
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Iniciando a série, relembro um pouco da história do Brasil no final do século XIX e início do século XX, vemos como nasce o samba e o choro, os gêneros pioneiros, e como se inicia o declínio da primeira República brasileira.
República Velha
No Brasil, em 1889, proclama-se a República. Um grupo de militares liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891) derruba a monarquia e torna-se o nosso primeiro presidente brasileiro, chefiando um Governo Provisório com poderes ditatoriais. Nasce a atual bandeira brasileira, com o lema positivista “Ordem e Progresso” e, pouco mais tarde, é escrita a primeira constituição republicana, cujo principal autor foi Rui Barbosa.
Proclamação da República (óleo sobre tela de Benedito Calixto, 1893)
Dois anos depois de Deodoro da Fonseca ter assumido a presidência, este renuncia e dá lugar ao marechal Floriano Peixoto (1891-1894). Após esses dois presidentes militares, o Brasil emerge numa outra República, dominada pelas oligarquias, em especial a mineira e a paulista, representadas por partidos políticos estaduais (não existiam partidos políticos nacionais), caracterizando a “Política do Café-com-Leite”, iniciada por Prudente de Morais (1894-1898).
Durante o período da República Velha, que durou da proclamação da República até a Revolução de 30, houve a atração de imigrantes, o ciclo da borracha, o coronelismo, a Primeira Guerra Mundial, a Semana de Arte Moderna. E em termos de música?
Samba e Choro
No início do século XX, o samba nasce como um ritmo sem letra, de raízes africanas. Na casa da Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, e de João Batista da Silva, o Sinhô, a cultura africana era predominante. A primeira canção oficial de samba chama-se “Pelo Telefone”, de 1917, de autoria questionável (atribuída a Ernesto dos Santos, o Donga), pois nascera de um conjunto de músicos que frequentavam a casa da Tia Ciata. Veja abaixo um vídeo gravado em 1966 da canção Pelo Telefone cantada de forma descontraída por Donga e Chico Buarque, na presença do grande mestre de choro Pixinguinha:
A partir de 1908, nasce o choro, gênero totalmente instrumental, que gozava de maior prestígio. Tocava-se choro para disfarçar, quando na verdade queria-se tocar samba. Um dos primeiros “chorões” foi o flautista Joaquim da Silva Calado, ou apenas Calado, que modificou ritmos do estrangeiro, como a polca e a valsa, para o samba. Pode-se dizer que o choro, diferentemente do samba, teve um origem mais européia, branca, o que o tornava mais aceito pelas elites da época. Segundo depoimento de Pixinguinha: “Se havia uma festa, o choro era tocado na sala de visitas e o samba só no quintal, para os empregados.”
Neste sentido, foi importante a presença da compositora Chiquinha Gonzaga. Autora de gêneros como o maxixe, ritmo gerador da primeira dança urbana brasileira (considerada “a dança proibida”), foi a primeira mulher a compor músicas para óperas e peças e a reger orquestras. Trouxe ritmos negros, até então rejeitados, para dentro dos consagrados ritmos brancos. No vídeo abaixo, você pode ouvir a polcaAtraente, de sua composição, na versão do grupo As Choronas:
O declínio da República Velha
A crescente industrialização brasileira trouxe muitas mudanças, embora a população ainda fosse majoritariamente rural. Cresceu a malha ferroviária, o mercado interno, a imigração. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi fundado em 1922, mesmo ano em que ocorreu a Semana de Arte Moderna e o advento do Rádio.
Após a Primeira Guerra Mundial, um movimento começou a ganhar maiores proporções, o tenentismo, protestando inicialmente contra o governo de Artur Bernardes (1922-1926). Eles promoveram a conhecida Revolta do Forte de Copacabana (na fotografia abaixo, de Zenóbio da Costa). Um dos movimentos tenentistas foi a Coluna Prestes, organizada por Luis Carlos Prestes, que viajou o Brasil divulgando, entre outras, ideias contra a República Velha.
O último presidente da República Velha foi Washington Luis (1926-1930), mas como ocorreu a transição deste para o governo de Getúlio Vargas, com mais informações sobre a música da época, veremos no próximo post.
Muitas pessoas acham que animações são só para crianças, que filmes em 2d ou 3d não são sérios. Bem, para mudar essa opinião é só assistir Persepolis.
Dirigida pela Marjane Satrapi, uma iraniana que foi morar na França, e Vincent Paronnaud, um francês conhecido pelos seus quadrinhos, Persepolis é um filme de animação 2d preto e branco, que muitas vezes lembra os antigos filmes expressionistas alemães. Tipo Fritz Lang. Isso, é claro, não é uma coincidência, os diretores gostam bastante desses filmes, e acham que o fundo expressionista tem um ar “universal”.
O filme, feito na França e com atores franceses, se passa no Irã na época da revolução de 1979, e conta a história da diretora.
No Irã de 1970, Marjane (“Marji”) assiste os eventos através dos seus olhos de criança e família idealista, o qual o sonho é ver a queda do Shah, e ter uma democracia. O Shah caiu na revolução de 79, mas depois dele os fundamentalistas islâmicos tomaram conta do país. Marji, que ama usar tênis “americanos” e ouvir rock, é obrigada a usar véu, e viver numa nova tirania.
Porém, ela não consegue ficar em silêncio, briga com as professoras que dizem que a vida está ótima no Irã, e é muito rebelde. Tanto que com medo que ela tenha um fim parecido com o do tio dela, que foi executado, os pais da Marji decidem manda-la para Viena, onde ela pode ser livre, e ter uma educação diferente.
Porém, Viena também não foi fácil, Marji se sentia diferente, e embora ela tenha encontrado um grupo de amigos, ela era diferente deles, e muitas vezes se sentia envergonhada de ser do Irã. Ao mesmo tempo que ela se sentia assim ela se sentia culpada de ter deixado sua família e amigos num país de guerra. O Iraque estava em guerra com o Irã e antes de sair de seu país Marji presenciou o que é uma guerra. Uma das cenas mais incríveis demonstrando a guerra é quando uma bomba cai na casa da vizinha dela, e ela acaba vendo a sua vizinha morta no chão.
Depois de um tempo em Viena ela resolve voltar para o Irã. Onde de novo ela encontra o choque de ter um pensamento livre, e viver numa ditadura islâmica. Ela acaba casando com 21 anos, para a infelicidade da mãe dela, que sempre disse que a criou para que ela fosse uma mulher livre, independente. Porém, acaba se separando. Depois Marji acaba indo para França, onde está até hoje.
O mais importante do filme é que qualquer um que assiste percebe que não importa onde estamos, de onde viemos, todos nós somos seres humanos, e somos, de uma certa maneira, iguais. Somos rebeldes quando adolescentes, bobinhos quando crianças, temos sonhos que não são realizados, nos decepcionamos com namorados, nos sentimos tristes, não nos sentimos adequados à nossas turma de amigos…Nada é diferente no Irã, por mais que pareça ser.
É um filme cheio de emoção, e a forma que é tratado é simplesmente maravilhoso. Tem humor e ao mesmo tempo drama. Os desenhos podem ser super bonitinhos, mas também muito comoventes. A fotografia é muito boa, pois a camera trabalha como num filme normal. E o próprio script tem diálogos muito bons e interessantes. Persepolis vai te fazer rir, chorar, cantar, e o mais importante, refletir.
Cansei. Cansei de machistas, de racistas, de políticos que são os dois ao mesmo tempo mas são hipócritas, cansei de propagandas de como o corpo da mulher é só uma fonte de prazer, cansei de programas falando como eu tenho que me vestir, cansei de revista de estética e de pressão da sociedade sobre como devo agir, cansei dos racistas que se escondem através de frases ambíguas, cansei de de injustiças contra mulheres no Oriente Médio, cansei de homens pervertidos atrás de meninas 10 anos mais novas. Cansei das bundas aparecendo no Carnaval, e de eu ter que ser só isso. Cansei da hipocrisia da sociedade de hoje dizendo que 1) mulher não sofre mais preconceito e que 2) negros também não sofrem.
Talvez muitos que leiam isso pensem: “ah, que menina revoltada”; e estão certos. Um momento você tem que estar. TEM, é quase um dever estar revoltado no mundo de hoje! Por que?
Propaganda de...Shampoo?
Capa da Vogue
Não que esses dois exemplos são os melhores, são apenas exemplos de como a mídia trata as mulheres e a minoria. Todos os dias enquanto tento assistir algo decente na T.V o programa é interrompido por alguns minutos de propagandas, de tortura. Depois de assistir sobre a guerra do Iraque eu me deparo com o produto mágico que vai acabar com as minhas espinhas, depois que termino de me informar sobre aids na África, exigem de mim meu dinheiro para comprar um novo produto de limpeza, pois um dia serei dona de casa, afinal, sou mulher.
Sou mulher. Isso quer dizer que eu um dia terei que cozinhar para meu marido e filhos, que me interesso por sapatos e batons, que sonho com casamento e amo assistir programas à respeito, que adoro fofocar, que não me interesso por política, e se me interesso é por que o candidato é uma candidata, que quero a segurança de um homem mais velho, que sou obcecada com meu peso, que tenho que manter meu homem feliz, e que fui criada através da sua costela para mante-lo companhia. (Que maravilha ser mulher!)
Gugu, Faustão, Silvio Santos etc…Qual deles é negro? Salve uma negra na Globo; não vejo eles sendo representados, a não ser quando são notícias (muitas vezes ruins).
O caso é que machismo e racismo existe! Mas muita gente prefere dizer que não, ou eles simplesmente não veêm!
O filme Crianças Invisíveis (All the Invisible Children, 2005) é um conjunto de sete curtas-metragens de diretores diferentes, gravado em locais diferentes, abordando diversas facetas de problemas envolvendo crianças, seja violência, pressão psicológica, trabalho forçado, pobreza etc.
Cada diretor contribui com seu ponto de vista, gerando um longa-metragem interessante que destinou os seus lucros à UNICEF, ao Programa Alimentar da ONU e à Cooperação Italiana para o Desenvolvimento. A idéia é dar luz àquelas crianças que, ou não vemos (o que é muito raro), ou fingimos não ver. Agora, uma análise subjetiva de cada um dos curtas-metragens:
Tanza (Diretor: Medih Charef / País: África)
Tanza
A história do diretor argeliano mostra jovens armados que seguem representando seu povo nas lutas armadas pelo continente africano. Há um confronto com militares, que leva a morte de um dos jovens. Mais tarde, ao chegar na aldeia alvo, Tanza, de 12 anos, fica encarregado de plantar uma bomba-relógio numa escola.
Este fragmento é o mais monótono dos sete. Vale mesmo pela última cena. Tanza brinca com a bomba antes de implanta-la. A todo o momento, a bomba fica “tic tic tic tic…”. Por fim, Tanza calmamente se deita sobre ela ouve-se um último “tic”, seguido do silêncio. Subentende-se o desfecho.
Blue Gypsy (Diretor: Emir Kusturica / País: Sérvia-Montenegro)
Blue Gypsy
Uros é um garoto que foi preso por roubar para o seu pai alcoólatra, que anda pela cidade como um cigano. No momento em que vai sair da prisão, junto com a família (no qual é bastante maltratado) percebe que é melhor ficar lá dentro.
Fragmento mais cômico, conta com uma divertida cena no qual o pai cigano observa alguns de seus filhos tocarem música para distrair as pessoas em um banco enquanto os outros aproveitam para saquear inclusive a caixa.
Jesus Children of América (Diretor: Spike Lee / País: EUA)
Jesus Children Of America
Talvez o mais intenso dos sete fragmentos, este conta a história de uma menina, Blanca, moradora de Brooklyn, filha de um casal dependente de drogas e soropositivos. Embora a família escondesse o HIV dela, dizendo-a que deveria tomar um monte de remédios porque tinha uma “doença no sangue”, Blanca não se deixa enganar.
Na escola, é rejeitada pelas colegas, que a discriminam pela sua doença. Assim, é considerada um perigo para as outras crianças. Em casa, seus pais se entorpecem constantemente. Com uma vida sem perspectiva, Blanca resolve freqüentar um centro de aidéticos anônimos.
Bilú e João (Diretora: Kátia Lund / País: Brasil)
Bilú e João
Ambientado na capital de São Paulo, duas crianças, Bilú e João, saem pelas ruas barulhentas e movimentadas buscando lixo – dentre latinhas, papelão e qualquer tipo de tralha – para levar a um depósito que os recicla, pagando pequenos valores às crianças dependendo do quanto e do que conseguem apanhar.
Da co-produtora de Cidade de Deus, o curta não deixa de lado o tom cômico e ingênuo que contrasta a dura realidade com a inocência das crianças, que a despeito da sua situação, buscam diversão em pequenas trivialidades do cotidiano.
Jonathan (Diretores: Jordan Scott e Ridley Scott / País: Reino Unido)
Jonathan
Jonathan é um foto-jornalista que, perplexo com o próprio fruto de seu trabalho (fotos de guerras e cidadãos em condições subumanas), em um surto imaginário volta a ser criança, passeando em um belo cenário com alguns amigos.
Uma cena interessante é quando as crianças se vêem num campo de batalha que, após tiroteios e explosões, acalma-se ao silêncio, e as crianças, em meio a outras tantas, vão se revelando dos escombros, andando juntas.
Ciro (Diretor: Stefano Veneruso / País: Itália)
Ciro
Ciro é um garoto que mora no subúrbio de Nápoles. Crescendo praticamente apenas no meio de outros jovens, por ser negligenciado pela mãe, Ciro anda sozinho pela cidade, roubando objetos de pessoas mais afortunadas e trocando por bilhetes num parque de diversão.
Destaque para a cena em que brinca com a sombra das próprias mãos, moldando, inclusive, o formato de uma arma, que aponta para a garganta e, simbolicamente, dispara.
Song Song & Little Cat (Diretor: John Woo / País: China)
Song Song & Little Cat
Uma história mais sentimental, que pode arrancar lágrimas dos mais emotivos (rs), mostra um paralelo das vidas tristes de duas crianças: Song Song, uma menina rica que toca piano para não ouvir as brigas dos pais, e Little Cat, uma menina pobre sob os cuidados de um idoso que a adotou.
Song Song se revolta contra suas próprias e numerosas bonecas, jogando uma pela janela do carro. A boneca é apanhado pelo idoso que leva à sua “filha”, Little Cat. Quando o idoso morre em um acidente, Little Cat é re-adotado e passa a vender flores. Em certo momento, Song Song reconhece sua boneca nas mãos da menina pobre e a elogia.
Depois de todo este post, só posso finalizar recomendando que vocês assistam, pois é um filme interessante. O curta que mais gostei foi Ciro, pelo misto de malandragem e inocência. Mas o Bilú e João também é muito interessante (e mais identificável comigo, que sou paulistano). Quem já assistiu, sinta-se à vontade para opinar.
Há dois meses, li o romance Ensaio sobre a cegueira, do autor português José Saramago. Hoje, assisti à estréia do longa-metragem Ensaio sobre a cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meirelles. O livro é intenso, criativo e cria uma atmosfera caótica muito interessante. O filme deu uma amenizada no clima, mas conseguiu realçar certos aspectos notáveis da obra.
A história começa com um homem que fica cego enquanto estava parado no semáforo. A partir de então, a cegueira contagiosa se alastra rapidamente até que as autoridades decidem isolar os cegos num manicômio abandonado. Neste ambiente, os cegos devem se organizar para viver pacificamente. Mas o número de cegos vai crescendo até que começam a ocorrer disparidades e conflitos por comida. Quando os cegos conseguem sair do manicômio, encaram uma cidade em estado de colapso, onde os instintos estão aflorados.
Uma das peculiaridades da obra: não há identificação de personagens, de tempo ou de espaço. As personagens são nomeadas pelo que representam: o médico (Mark Ruffalo), a mulher do médico (Julianne Moore), Rei da 3ª Ala (Gael García Bernal), a rapariga de óculos escuros (Alice Braga) etc. Para o filme, que não contou com narrador, a nomeação das personagens quase não foi evocada.
A iluminação do filme, branca e leitosa, remete à “treva branca”, a cegueira clara, como uma luz ofuscante. Em diversos momentos do filme, a câmera perde o foco e logo vem a cor branca; em outros, a tela fica completamente branca, como se fosse a visão dos cegos. Isto gera um efeito visual muito adequado, no entanto, tira um pouco da tensão do filme porque evita os tons sombrios típicos de filmagens desse naipe. Tudo pela fidelidade à obra, que se passa em ambientes constantemente iluminados.
O livro possui diversas falas que revelam a intenção metafórica da obra, como “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” ou quando a moça de óculos escuros sugere que eles sempre estiveram cegos, mas nunca perceberam. No filme, estas falas foram retiradas, mas fortemente sugeridas.
O começo do filme pode ter ficado meio confuso para quem não o leu, porque as coisas foram acontecendo muito rapidamente. A chegada dos cegos ao manicômio, por exemplo, não recebeu devida atenção. No entanto, da metade para o fim o filme melhora bastante, a partir da cena de estupro seguida de uma bela cena na qual as mulheres, humilhadas, limpam o corpo de uma delas que morreu durante a violência sexual.
A trilha sonora não despertou muito interesse, mas foi coerente com clima de enigma e dúvida, com sons que remetem um pouco à insanidade. O visual da cidade foi impecável, com carros abandonados, lixo no chão, cachorros de rua comendo pessoas mortas, cegos brigando por um pouco de comida. As cenas cortadas, apesar de interessantes, não fizeram muita falta, porque poderiam estender demais o filme ou cansar o espectador por desviar do foco.
De longe, não foi o filme mais impactante de Meirelles, mas foi bastante fiel à obra. Podemos dizer que foi uma boa adaptação, tendendo a um lado mais comportado, que Saramago, dando mais ênfase ao caos, nem explorou. Entretanto, não deve ser fácil adaptar o livro, que possui um apelo bastante literário. A adaptação cinematográfica merece parabéns, só espero que seja bastante aplaudida.
Eu gosto de teatro, e gosto muito também de monólogos. Os monólogos são oito ou oitenta, dependem de dois fatores: a interpretação do ator e a qualidade do texto. Não é que nem um teatro com muitos personagens, onde um bom figurino pode mascarar um cenário ruim, um bom cenário pode enganar um texto interessante, uma boa sonoplastia pode maquiar uma interpretação insossa. No monólogo, o ator da peça e o autor do texto dão a cara para bater.
Um bom ator transforma um monólogo numa encenação impressionante, mas também pode levar tudo por água abaixo. Um bom texto pode deixar um monólogo muito interessante, mas é possível deixar todos os espectadores entediados diante de tal monotonia. No entanto, se os dois fatores forem bons, o monólogo vai além, fica marcado. Por isso, coloquei abaixo, três curtos monólogos que gosto muito:
O Monólogo das Mãos (Interpretação: Bibi Ferreira / Texto: Giuseppe Ghiaroni)
O vídeo abaixo é uma apresentação da Bibi Ferreira no Programa do Jô, adaptando o texto do redator Giuseppe Ghiaroni. O texto é excelente e, por falar de forma tão precisa a importância das mãos, consegue adentrar em uma das melhores coisas desenvolvidas pelo homem: a linguagem. Na interpretação de uma musa do teatro, as mãos ganham seu devido crédito.
Eu sei que vou te amar (Interpretação: Rafaela Cappai / Texto: Arnaldo Jabor)
Baseado no filme de Arnaldo Jabor, parte do texto foi adaptado para a atuação de Rafaela Cappai, atriz mineira da qual apenas obtive conhecimento pelo YouTube. O texto é muito bom, conta a história de um casal separado há alguns anos, que se reencontra para discutir a relação e, no fundo, mostrar um mista de amor e ódio, com toda uma ternura. Neste vídeo, especificamente, a mulher tenta se vingar do ex-marido.
Poema Enjoadinho (Interpretação: Paulo Autran / Texto: Vinícius de Moraes)
O texto, muito conhecido, é interessante por ficar se contrariando o tempo todo em relação a ter ou não filhos, coisas do poetinha Vinícius de Moraes. A interpretação não podia ser melhor, pelo rei do teatro brasileiro que faleceu há alguns meses. Infelizmente, este vídeo foi apresentado no jornal da Band e em certo momento a tela se divide com o Datena, mas, enfim, dá para gostar do mesmo jeito.
Hoje eu ia à exposição da Bossa Nova, na OCA do Ibirapuera, com duas amigas; chegamos no ponto e esperamos o ônibus, esperamos, esperamos, esperamos, e então decidimos ir pro Conjunto Nacional na Paulista, que ia ser mais rápido, e com muito mais opção de ônibus. Entramos e demoramos só no trânsito. Isso me lembra esse texto que li no Estadão, com a música maravilhosa “Chega de Saudade”:
Nossa! Já são oito da manhã! Perdi a hora…Vai Marco, mexa-se! Tem reunião às nove. Um banho rápido, café, um terno e rua. Pra minha tristeza, o trânsito está ruim, como sempre. O que fazer?
Liga pra Dani e diz a ela que vai atrasar. Boa idéia! Quase esqueço o celular. E a gravata, sem ela não pode ser. Alô? Caixa postal! “Dani, liga para a Ana e diz-lhe que estou a caminho.” E numa prece, quem sabe eu chego. Espero que ela regresse com os relatórios, porque eu não posso mais sofrer com essa pressão de atrasos.
No rádio está tocando Chega de Saudade. Legal, a bossa nova completa cinquenta anos. Mas a realidadeé que o trânsito está horrível. Deve ser essa rotatória nova, mas sem ela não há paz nesse cruzamento. E não há beleza nessa rua. Cortaram as árvores, esse caminho agora é só tristeza e a melancolia reina.
E agora esse caminhão que não sai de trás de mim…Não pára de buzinar. Sai de mim, ô meu! E o cara não sai…
Nossa! Já são nove e dez! Acho melhor ligar e avisar que eu vou atrasar. Mas se ela voltar sem os documentos? E se ela não voltar? E eu dependo desse contrato.
E a Carol, hein? Que coisa linda. Nem acredito que estamos namorando. Que coisa louca ontem à noite…Vou chamá-la para almoçar. Ela trabalha logo ali no Largo do Batata. O trânsito deve melhorar, pois há um novo acesso na Marginal.
Puxa, dez horas, perdi a reunião. Quase duas horas andei menos de um quilômetro. Se ao menos tivesse peixinhos a nadar no Rio Pinheiros…E esse mar de carros. Nada do que eu queria.
Alô Carol? Vamos almoçar? Claro, pode esperar os beijinhos que eu darei na sua boca. Imagina ela dentro do meu carro, dos meus braços? Os abraços hão de ser inesquecíveis. Milhões de abraços. Mal posso esperar.
Já são onze e meia. Meu horário ficou apertado.Assim é melhor esquecer a reunião. Vou direto para o restaurante que é colado no escritório. Assim ganho tempo e não fico calado. E assim chego na hora.
Tudo parado e já são uma e meia. Nada de abraços e beijinhos e carinhos durante o almoço. Sem chance. Isso parece não ter fim. Melhor colocar a gravata, vou chegar em cima da hora pra reunião das três…
Alô? Carol? Vamos ter que desmarcar o almoço. Já são quase quatro, vou passar na firma. Que tal um happy hour? Te pego aí no teu trabalho.
Alô? Oi Dani, tudo bem? Já estou a caminho, mas cancela a reunião das dezessete. Tenho que mandar um e-mail que é pra acabar com esse negóciode atraso dos funcionários.
Nossa, vai dar cinco e meia. Alô? Carol? Melhor a gente jantar, já que você não consegue viver sem mim, né? Até daqui a pouco.
Anoiteceu. E meu carro parou. O QUE FOI AGORA?
Acabou a gasolina. Vou ter que empurrar pro acostamento. Alô? Carol? Tudo bem? Nosso jantar não vai rolar. Meu carro…Vou ligar pro guincho, amanhã eles tiram…
Escuta, quer casar comigo? Aceita? Que legal! Vamos mudar daqui? Não quero mais este negócio de você longe de mim. Amanhã a gente fala melhor. Vou ter que voltar pra casa a pé.
Beijos. Também te amo. Tchau.
Texto feito por: Marco Barcellos. Tirado do Estadão.