Continuando a série de textos sobre Quando a vida começa, após discutir (e refutar) a ideia da vida ser um continuum, não havendo uma distinção entre um começo e um fim, neste post vou discutir umas das principais concepções do início de uma vida: a fertilização ou fecundação, o encontro entre o espermatozóide e o óvulo.
A primeira célula
Também chamada de zigoto, a primeira célula de um organismo é o produto da fusão entre um gameta masculino, o espermatozóide, e um gameta feminino, o óvulo. Neste encontro, 23 cromossomos do pai se juntam a 23 cromossomos da mãe, constituindo um total de 46 cromossomos no caso da espécie humana. Sendo que essa combinação de 46 cromossomos é única em cada indivíduo: ninguém tem o mesmo material genético que o outro, exceto os gêmeos idênticos, o resultado de um processo que acontece sempre após a fertilização.
A concepção de que a vida começa na fertilização parte, então, de uma visão genética, na qual a combinação única de material genético constitui um indivíduo único. A vantagem dessa concepção é que ela é universal, pelo menos entre todos os organismos que se reproduzem apenas através do sexo.
Logo, todos os organismos de reprodução exclusivamente sexuada passam, obrigatoriamente, pela fertilização. Isso vale também para as plantas, mas antes que os botânicos me atirem pedras, vou explicar: as plantas têm duas formas de vida, uma delas é gerada pela fertilização, outra, pelos esporos. É um caso à parte, sim, mas não invalida a universalidade da fecundação (em vocabulário especializado: a forma diplóide de vida, como a nossa, é produto da fecundação).
O primeiro passo é a fecundação!
É isso mesmo que você leu: estou dando uma resposta que pode ser lida como definitiva. Todas as outras concepções de início de vida (implantação ao útero, formação de sistema nervoso, capacidade de sobreviver fora do útero, nascimento etc) dependem da fertilização. Sem a fertilização, nada mais pode acontecer. Sem que haja fecundação, a vida morre em alguns gametas incapazes de gerar uma vida. Para ter vida, é necessário haver fecundação!
Entretanto, o problema não é tão simples assim. A fecundação dá o primeiro passo para o início da vida, mas não a define. Simplesmente porque, se não ocorrer os demais processos citados acima, o desenvolvimento da vida não é levado a cabo.
Uma visão religiosa
Em nosso país, cuja religião é majoritariamente cristã, essa visão tem implicações sérias. A Igreja Católica acredita que a fertilização gera um ser humano pleno. Os cientistas sabem da importância da fertilização, mas costumam negá-la para adequar o início da vida aos seus interesses, como discutiremos em outros textos.
Vale também refutar a ideia atrasada da Igreja de que a masturbação é quase um genocídio, pois está se matando vidas em potencial. O corpo masculino naturalmente elimina os espermatozóides a cada 8 horas, produzindo mais, e o corpo feminino elimina um óvulo mensalmente sem, no entanto, produzir novos óvulos. Sendo a fertilização o primeiro passo, a masturbação é completamente inocente.
Concluindo, não podemos nos deixar enganar: repito que o primeiro passo para a vida é a fertilização, no entanto, isso só não basta. Se bastasse, não haveria índices tão altos de aborto espontâneo (final involuntário de uma gravidez antes da 20ª semana). Cerca de 20% das gravidezes reconhecidas terminam em aborto espontâneo. Porém, essa porcentagem deve ser bem maior do que o estimado, pois a gravidez só é reconhecida após a implantação do embrião ao útero, o que leva em torno de 14 dias. Antes disso, o embrião pode ser naturalmente descartado sem que a mulher saiba que ocorreu fertilização. Portanto, fertilização só não basta!



Parabéns pela postagem. Assunto relevante para as atuais discussões.
Obrigado, Ítalo, espero que tenha servido!
Abraços.