Vivemos numa época em que valores tradicionais, como a castidade, estão em baixa. Hoje, a juventude vai às baladas e usufruem prazeres que, há algumas décadas, eram recheados de pudor. Em meio a essa liberação sexual tanto entre homens quanto mulheres, que ocorreu principalmente nas sociedades ocidentais, vale a pena nos perguntar se realmente nos libertamos do tradicionalismo até então vigente.
Analisando especificamente o caso da igualdade de sexos, a resposta é não. Falar de mudanças na sociedade é falar num tom político. E, óbvio, é de certo modo um ato político dois homens andarem de mãos dadas na rua, mais até do que uma demonstração de afeto. Porém, a liberação sexual, entendida hoje como ficadas sem compromisso, se banalizou, tornando-se modismo de juventudes que, alienadas, buscam apenas um prazer pessoal.

Viva a liberação sexual!
Não há política nas micaretas. O garoto de classe média vai com a intenção de “pegar” várias meninas, apoiando-se em conquistas liberais anteriores, sem ter a menor consciência disso. A própria visão de “pegar” mulheres, somada à objetificação do sexo, são visões conservadoras e machistas.
Não quero dizer que o homem se aproveita da mulher nas baladas, até porque é recíproco. Individualmente, tanto a mulher quanto o homem se beneficiam dessa liberdade. Coletivamente, a mulher sai prejudicada. São elas que majoritariamente são consumidas pela indústria da beleza e do sexo.
Os homens as consomem, eles compram a beleza. É claro que também são alvos desse ideal, mas um homem “sarado” tem um significado por si só. Ele existe como um macho dominante, no caso, “pegador”. Enquanto que as mulheres “gostosas” existem em relação a ele, são objetos para ele, e o seu prazer é apenas um anexo de um prazer maior voltado para a satisfação masculina.
Reafirma-se o que bem escreveu a escritora feminista Simone de Beauvoir: “O homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. Ela não é senão o que o homem decide que seja.”

Liberação sexual: sempre política?
Uma mulher que sai na Playboy pode até se achar feminista, porque os homens a idolatram tal qual um romântico idealiza a mulher amada. Ela, a modelo, se põe num patamar superior, parece ser dominante, exibe caras e bocas provocantes, procura poses inéditas que tentam subjugar o homem. Mas não percebem que, sendo reféns da beleza, caem na ilusão de que conquistam seus direitos não abrindo a cabeça, e sim as pernas.
Assim, embora a sociedade tenha visto avanços nos direitos femininos, que reduziram o machismo profissional, intelectual e político, ainda é fortalecido uma outra forma de machismo: o machismo sexual.
Enquanto se “pornifica” tudo, até propaganda de cerveja, as gerações vão sendo educadas de modo que ser homem vira sinônimo de ver sexo onde não tem. O sexo está em tudo, na mesma proporção em que não está em nada. Comprar um carro não é sexo, passar creme antiacne ou fazer a barba também não, mas estão associados pela publicidade.
As gerações sexualmente liberais acreditam estar exercendo uma liberdade social e política, quando na verdade tornam-se mantenedoras de tradicionalismos que apenas se reformulam para continuarem existindo.
É a desumanização do homem ou a animalização do homem?!
É até cômico.
Acho que a discussão pode ser dimensionada a um panorama maior. Bauman, exímio sociólogo, explica nossa contemporâneo muito bem com o conceito de modernidade líquida. Vale à pena debruçar nisso. Não essa banalização do “amor” e derivados como um elemento exclusivo do machismo ou que valha.
“(…)não abrindo a cabeça, e sim as pernas.” Gostei dessa!
Forte Abraço!
Adriano, eu enquanto mulher, vejo que sua análise é muito coerente. Eu sempre questiono se, de fato, vivemos uma igualdade entre os sexos no que diz respeito a essa liberação sexual. Concordo com você quando a resposta é não. Moro numa residência universitária, onde vivem quase 60 mulheres e nos deparamos com situações extremas de machismo na maior parte das vezes. Por conta disso, sempre trazemos discussões a respeito desse tema e de direitos da mulher, além do poder que a publicidade exerce à construção da imagem mulher e da sexualidade.
P.S. Gostei muito da frase: “não abrindo a cabeça, e sim as pernas”.
Adriano,
Gostei do artigo, sintetiza o machismo na sociedade atual… E concordando com os comentários acima a frase
“não abrindo a cabeça, e sim as pernas” foi ótimo.
Para complementar o assunto, gostaria de tirar uma dúvida que pode parecer fútil, mais que a princípio tem muita importância, pois não gosto de ler autores que são preconceituosos ao extremo.
Talvez você saiba, por retratar bastante assuntos sobre os dois filosofos.
A minha dúvida é se Nietzsche e Schopenhauer eram misoginos ou se aquilo que é exposto nos seus livros seria uma maneira de críticar as mulheres para causar uma reação favoravel a elas ?
Eu li algumas opiniões questionáveis a respeito e acabei ficando em dúvida. Como eu confio em você e na Bia, acho que se vocês souberem de algo vão acabar esclarecendo isso para mim.
Agradeço desde já!
Abraços.
Olá André HP e Juliana,
Obrigado pelos comentários. André, não sei se usaria o termo animalização ou algo assim, porque essa características de criar valores em cima das coisas é uma ação tipicamente humana, até onde se sabe. Ou pelo menos, neste nível de complexidade.
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Inã,
Talvez a Bia possa ajudar mais, porque ela conhece mais de Nietzsche e Schopenhauer. Só tome cuidado com o termo misoginia, que é diferente de machismo. Eu creio que eles sejam machistas, mas não necessariamente misóginos.
Nietzsche, em “Para além do bem do mal”, diz: “Que importa, à mulher, a verdade! Desde a origem, nada é mais estranho, mais avesso, mais odioso à mulher do que a verdade. A sua grande arte é a mentira, o que mais lhe interessa é a aparência e a beleza”. E Nietzsche vê nesse ‘arte’ o que os homens mais apreciam nas mulheres. Ele as trata como um ser superficial que seria um amparo aos problemas do homem.
Creio que tenha um tom nitidamente machista nesta afirmações. Falando desse modo, parece uma descrição da condição feminina, o que poderia dar margens às interpretações que você leu. Mas repare no termo “desde a origem”.
Em outro momento ele diz: “A mulher deve ser considerada como propriedade dos homens, como fazem os orientais”. Falando desse jeito, não parece estar contribuindo para a causa feminista. Para mim, essa atitude de Nietzsche chega a ser contraditório com o eixo da filosofia dele, que é Genealogia da Moral, dos valores. Se ele quer romper com a tradição judaico-cristã, com a tradição ocidental, como pode manter valores pré-estabelecidos, como o machismo?
Sobre Schopenhauer, ele tem uma frase que é “A mulher é um ser de cabelos longos e ideias curtas”. Essa frase também pode dar margens ambíguas, mas em trechos do “Metafísica do Amor”, ele diz que é natural um homem estar ligado a várias mulheres, enquanto a mulher a um homem só. Isso não está, do ponto de vista biológico, equivocado. Mas daí ele conclui que o adultério da mulher é muito mais imperdoável que o adultério de um homem.
Schopenhauer em vários momentos usa descaradamente a biologia para explicar outras questões, muitas vezes de caráter determinista, na qual não concordo.
Não sei se consegui te ajudar, Inã, espero que a Bia acesse essa página e ajude. Mas, eu concluiria que para mim eles soam machistas, são muitas evidências. Ao contrapor as ideias dele com a de uma feminista como a Simone de Beauvoir, é nítido o abismo que há. A Simone trata o feminismo de um modo mais científico, mais direto, e parece realmente querer desfazer as bases do machismo. Os outros dois não.
Abraços
Obrigado pela resposta Adriano.
Você tirou algumas dúvidas a respeito desses autores.
Apesar de que eu só poderei dar minha opinião de fato, após uma leitura mais aprofundada.
Seria interessante se a Bia comentasse algo a respeito deles… Ou se em uma outra ocasião vocês criassem um artigo a respeito do preconceitos dos filósofos e como isso pode acabar influenciando na obra de cada um deles.
Abraços!
Adriano Senkevics, não poderia deixar de parabenizá-lo por tão excelente texto. Nesses meus quatorze anos de uso da internet, nunca vi antes, palavras tão realistas, retratam exatamente o que a mídia nos impõe garganta abaixo e somos obrigados a engolir porque hoje em dia é tudo em nome do dinheiro, nunca mais será em nome dos bons costumes como era antigamente e nunca mais teremos paz, veja só as nossas menininhas dançando músicas com alto apelo sexual, beneficiando os malditos pedófilos… e estimulando a gravidez precoce e acarretando todos os problemas que já sabemos. Mas que saudade dos velhos tempos.
Deus o abençoe.
Obrigada.
Janete,
Obrigado pelo seu comentário, mas uma ressalva: meu texto critica inclusive os valores tradicionais, que no seu comentário foram chamados “bons costumes”. Essa visão está em desacordo, pois não deixa de ser uma visão machista também, na qual uma mulher não pode se expor e tem que ser bem comportada, tomar todo o cuidado com as suas ações para não parecer vulgar. O recente caso da UNIBAN, com a ridícula manifestação dos estudantes, mostra que esse é um pensamento ainda presente.
Caprichou em Adri? AMEI o texto. E concordo plenamente!
Obrigada por me fazer acreditar que ainda existem homens que não são machistas.
Beijos querido.