No capítulo passado, vimos como Getúlio Vargas saiu do poder, em 1945, entrando um período de democracia após a ditadura do Estado Novo. Esse novo período iniciou-se com a entrada do general Dutra ao poder. Na música, pode-se destacar o lançamento de Aquarela do Brasil e a emergência de um símbolo tropical, Carmem Miranda.
O retorno de Vargas

Getúlio Vargas
Havia uma canção que dizia “Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar”, se referindo à volta do “pai dos pobres”. Por outro lado, o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN (União Democrática Nacional) e dono do jornal Tribuna da Imprensa, fazia forte oposição ao presidente populista, insinuando até em fazer uma revolução para tirá-lo do poder.
Por mais curioso que pareça, Getúlio Vargas renunciou do poder, que havia tomado pela Revolução de 30, e voltou ao poder eleito democraticamente após o governo de Dutra, ficando de 1950 a 1954.
Neste novo governo, Getúlio, que possuía um discurso nacionalista (com restrições ao capital estrangeiro, Estado intervencionista e fortalecimento das leis trabalhistas) acabou cedendo às pressões dos políticos que compunham a maioria do seu ministério, defensores do livre mercado, eliminação de algumas conquistas trabalhistas e ação do capital internacional.
Entretanto, sem ceder completamente ao “entreguismo”, Vargas apoiou o lema “O Petróleo é Nosso” e criou a Petrobrás em 1953, para exploração dos recursos petrolíferos nacionais.
Pré-bossa
No pós-guerra, as marchas e os sambas eram mais tocados no Carnaval, porque durante o ano predominava, nas rádios, um outro tipo de samba, influenciado pelo bolero, que era o samba-canção. Este gênero musical era mais melodioso, tratava de solidão, amores desfeitos, ultra-romantismo. Os efeitos da guerra nos deixou na “fossa”, com “dor-de-cotovelo”, como apelidos para a produção musical da época.

Capa de disco de Dick Farney e Lúcio Alves
De influência norte-americana, a maneira de se cantar samba mudou. Dois cantores da época, Dick Farney e Lúcio Alves, gravaram juntos uma famosa canção, de Billy Blanco e Tom Jobim, este ainda pouco conhecido, chamada Tereza da Praia. No vídeo abaixo, veja o trio de Dick Farney cantando esta canção, infelizmente não encontrei a versão com Lúcio Alves.
Apenas para constar, veja o vídeo abaixo, da canção A Saudade Mata a Gente, interpretada pela dupla Dick Farney e Lúcio Alves:
O suicídio

Carlos Lacerda
Em 1954, ocorre o “atentado da Rua Toneleiros”, Copacabana, na qual tentaram, sem sucesso, matar o jornalista Carlos Lacerda na porta da sua casa. Em poucas horas descobriu-se o mandante do crime: foi o chefe da guarda pessoal de Getúlio. Embora não se tenha provado o envolvimento de Vargas com o caso, a campanha oposicionista, que pedia sua renúncia, ganhou forças.
No mesmo mês do ocorrido, especificamente na madrugada de 24 de agosto, Getúlio Vargas se suicida com um tiro no coração. Sua carta-testamento, que serviu de inspiração até para canções, terminava dessa forma: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”
Pré-bossa, ainda “fossa”
Fatos marcantes: suicídio de Getúlio, morte de Carmen Miranda e a perda da Copa do Mundo na inauguração do Maracanã, de 2×1 para o Uruguai, sendo que um empate já bastava para a vitória. Nélson Rodrigues dizia que estávamos vivendo a síndrome de vira-latas.
As reuniões entre os músicos de “fossa” continuaram, e os fãs-clubes de Farney e Lúcio Alves cresceram, revelando novas músicos. Um deles Johnny Alf, de nítida influência do jazz, num pout-pourry no vídeo abaixo:
Outras revelações foram Sílvia Telles, Dolores Duran e João Donato. Há também, representada no vídeo abaixo, a cantora Maysa.
E assim caminhamos para mais um período na história do país. Com o suicídio de Getúlio Vargas, o vice João Café Filho assume até que se tenha o próximo nome na presidência. Na música, a pré-bossa vai se modificando até finalmente se tornar bossa nova.