A história de uma cidade ou de um país costuma inspirar muitos romances, ou ao menos servir de cenário para contos e memórias. É o caso de duas obras lançadas pela Cia das Letras: Anarquistas, graças a Deus (1979), de Zélia Gattai, e Leite Derramado (2009), de Chico Buarque.
Os dois livros recontam a história do Brasil do século XX por um prisma memorialista, bastante subjetivo, narrados em primeira pessoa pela própria autora quando pequena e por Eulálio d’Assumpção, um velho no leito de um hospital.

A primeira, nascida de um casal de imigrantes italianos recém-chegados à capital paulista, cresce em meio a uma São Paulo nos primórdios da urbanização, quando a Avenida Paulista era reduto de grandes casarões, os carros eram poucos e importados e o cinema era mudo.
Seu pai, Ernesto Gattai, de clara orientação anarquista, paradoxalmente chamava a propriedade privada de furto enquanto vivia em sua bela casa acoplada a seu trabalho, uma oficina mecânica. Sua esposa, Dona Angelina, também anarquista, escondia livros considerados subversivos e tinha fé em Deus, sendo filha de italianos cristãos.

Em Leite Derramado, o relato de Eulálio, mesclado a broncas às enfermeiras e falhas de memória, denuncia a decadência de uma família descendente de portugueses, partindo de um barão do Império a um garoto carioca que vira as costas para suas tradições familiares.
Como contraste, temos Matilde, que se revela uma figura misteriosa nas memórias do velho enfermo como uma paixão mal compreendida, se mostra uma incógnita e ao mesmo tempo um turbilhão na vida de Eulálio.
O resultado de ambas as obras: um final não muito feliz que abre as portas para o próprio tempo continuar a história. Em Anarquistas…, a casa da família Gattai, que chega a ser quase um protagonista, é substituída por um prédio comercial, deixando esquecidas as memórias de um período da história. No outro livro e em consonância com o primeiro, Eulálio narra a morte de um avô como se fosse a sua própria morte, enterrando também as memórias de uma família.

Avenida Paulista (fim da década de 20)
No final, tudo é leite derramado, do qual já não se pode mais beber, pois é passado. Os sonhos anarquistas dos imigrantes também são. O tempo é maior que as famílias, as memórias tendem a se perder ao decorrer das gerações e com elas as tradições. A história torna-se um marco finito na vida dos narradores, prova de nossa presença efêmera e pontual diante da imensidão do tempo.
O leite já foi derramado.
Porém leite azeda e fica o cheiro…