Duas mulheres foram assassinadas em dois países muito distantes: Neda Agha Soltan foi baleada durante um protesto no Irã, e Marwa El Sherbini foi esfaqueada dezoito vezes dentro de um tribunal na Alemanha. A morte dessas duas mulheres, que lutaram pelo que acreditavam, conta uma história maior. Neda no Irã virou um ícone, enquanto Marwa foi ignorada.¹
Dia 20 de Junho de 2009 Neda foi assassinada num protesto no Irã, sua morte, mostrada na TV em todo mundo, chocou muitos; e deu forças para centenas (se não milhares) de iranianos, que até hoje estão protestando e gritando Allah-o Akbar das janelas. Neda virou um mártir, num país Shi’a, virou o símbolo de uma revolução que ainda não acabou, sua foto passou por quases todos os jornais do mundo, seu nome é dito quando Iranianos pedem a força de um mártir.

Neda
Houve muitos que morreram antes de Neda, e outros continuam a morrer. O porquê dela ficar famosa é um pouco de mistério (embora haja muitas especulações), mas sem dúvida ela é o símbolo de uma revolução na qual as mulheres estão liderando. Só que essa revolução não é apenas no Irã, mas no mundo Islâmico como um todo.
Marwa El Sherbini, egípcia morando na Alemanha, morreu dentro de um tribunal em Dresden, Alemanha, quando acabara de ganhar um veredito contra um homem que a assaltou verbalmente por causa do seu véu (hijab). Ela foi esfaqueada dezoito vezes na frente do seu filho de três anos, e quando o marido dela foi ajudá-la o policial atirou nele. Marwa era uma intelectual, uma pesquisadora, cientista; não usava hijab por que era submissa aos homens (como pode ser notado pelo fato dela ter ido até a corte), sua morte é tão política quanto a de Neda. Porém não foi para nas revistas até que houve protestos no Egito. E mesmo assim quando se é escrito sobre sua morte não é dentro de um contexto, como no caso da Neda. A sua morte é tida como um caso exclusivo, como se preconceito contra mulçumanos, e contra o véu, não estivesse crescendo na Europa e no mundo de uma maneira geral.

Protestos por causa da Marwa
O assassino da Marwa é um produto da sociedade que ele vive. O seu ato deveria trazer uma discussão sobre a discriminação que os mulçumanos sofrem, e o aumento desse preconceito dentro da sociedade ocidental (e principalmente na Europa).
Esse crime, vindo junto com a decisão do presidente da França, Sarkozy, de banir o hijab, é ainda mais importante do que nunca. Por mais que esteja sendo discutido apenas em jornais e revistas independentes, e blogs.

Mulheres mulçumanas como a Neda chegam até os jornais e revistas porque as suas histórias fazem parte de uma narrativa que o Oeste mantém. A história dela não é de um cristão, judeu, hindu, budista, ou ateu, que a atacou, mas sim de um governo teocrático. A sua história é tanto sobre a força das mulheres mulçumanas, quanto da opressão que a religião Islâmica é capaz.
A morte trágica da Neda se encaixa na retórica que os direitistas do mundo todo têm contra Islã e mulçumanos. A morte da Marwa não. A morte da Marwa é também a morte de uma imigrante.
Enquanto ocidentais afirmam o quanto o Islã é intrinsecamente oposto aos direitos das mulheres, eles banem a burqa e o direito de ter um aborto. A discussão não é se usar a burqa é ou não um ato feminista, ou se o aborto é um ato feminista. Mas a escolha é um ato feminista. É com o direito da escolha que a pessoa, independente do sexo, afirma sua humanidade e seu valor.
Quando Sarkozy proibiu o uso da burqa (aquele que cobre o corpo inteiro) ele disse que a burqa é um símbolo da opressão contra a mulher, que tira sua identidade. Entre um presidente que proíbe a burqa e um que obriga seu uso, eu fico com o Sarkozy. Porém, não se pode negar que ele está retirando a escolha de mulher. Além de estar presumindo que todas as mulheres que usam a burqa o fazem por obediência. Sarkozy não deixa de ser um opressor, pois quer fazer o que todos os machistas querem: “proteger” as mulheres. Como se nós não pudéssemos nos proteger sozinhas!
Um marido proibindo a sua esposa de usar saia é tão ditatorial quanto um que a manda usar a burqa ou hijab.
Uma República Islâmica é sem sombras de dúvidas cruel com as mulheres, não estou querendo dizer que não. Na maioria dos países ocidentais as mulheres (e os gays e trans) têm mais liberdade do que nos países teocráticos. Porém, retirar o direito de escolha, e ver a sua cultura como a certa, nunca é bom. Neda era, afinal, uma mulçumana.
Políticos como McCain vivem dizendo como Islã é tirânico, dão discursos atrás de discursos sobre os males de uma república islâmica. Porém esses mesmos políticos não hesitam ao dizer que aborto é contra Deus. Esses políticos proíbem duas pessoas que se amam casarem (se elas forem do mesmo sexo). Esses políticos falam da Neda, mas não da Marwa. Pois esta morreu lutando contra o discurso que eles mesmos têm.
Há uma pressão para se usar o véu nas sociedades mulçumanas (embora isso seja tribal e não religioso – não está no Qur’an que é necessário) e não ser desejada; porém há uma grande pressão nas mulheres ocidentais de serem desejadas. Se as mulherem que usam burqa perdem a identidade, as mulheres que usam minissaias também.
Hoje em dia há meninas de onze anos que estão em dieta. Onze anos! E isso não é um sistema opressor!? Por mais que o governo não esteja por trás desse tipo de coisa, a sociedade como um todo as aprova – do mesmo jeito que um sistema teocrático só funciona com o apoio do povo, como é possível ver no Irã.
Como Sarkozy sabe se as mesmas mulheres que ele está proibindo de usar a burqa não as usam para protestar contra a objetificação delas mesmas?!
Marwa, Neda, e até Benazir Bhutto não eram machistas, submissas, não eram Amélias do mundo Islâmico. Mas as três usavam hijab.
Quando uma cultura se diz melhor, mais moral, que outra, não existe respeito. O único produto da retórica que diz que os mulçumanos não conhecem a democracia, ou direitos iguais, é a discriminação religiosa. Homens e mulheres verdadeiramente feministas não podem deixar que políticos preconceituosos usem o movimento feminista contra uma sociedade inteira.
Ya Neda. Dê-me o poder da Neda. Iranianos falam isso dos mártirs, antes Ya Ali, agora Ya Neda.
¹ Retirado daqui
É profundamente lamentável e horrível viver em um país onde os direitos do cidadãos não são respeitados,sendo totalmente massacrados por uma ditadura totalmenta opressora e sem compromisso com os direitos humanos,enquanto o fanatismo religioso permanecer nas mentes destas bestas humanas, nunca vamos ter paz entre os homens e vamos assistindo cada vez o massacre e a extinção de nossa raça na face da terra!
Eu tinha escrito um comentário bem legal, mas deu erro… ¬¬’
O que eu tenho a dizer é: Ainda vai demorar muito para o machismo e o preconceito em relação à mulher, acabarem. Acredita-se ainda que o homem é mais forte, que o homem é mais isso, pode isso e aquilo e que a mulher não pode, não consegue.
É bom relembrar que homem e mulher são diferentes sim e complementares, mas que suas caracteríscas ou capacidades nem sempre são definidas pelo sexo em si. Porque se fosse, todos os homens seriam fortes, peludos… O que nem sempre acontece. Já houve casos em que mulheres bateram em homens. Será mesmo que ser forte é coisa de macho? Tenho certeza que não, e este é só um de muitos exemplos de que a mulher nem sempre é menor e frágil.
Beijos Bia e Adri!!
acabem*
É triste que na era da racionalidade ainda haja pessoas que nutrem preconceitos… Pior quando o Estado, que deveria garantir as liberdades individuais, atua na contramão da sua função.
Bia, não sei quando vai poder me responder, mas queria saber se a minha suspeita se confirma: pelas informações que vêm até mim, alguns países europeus como a França e a Alemanha me parecem mais xenófobos que o próprio EUA, ainda que este carregue um grande estigma quanto a isso; minha impressão tem fundamento?
Ótimo texto, Bia, sou seu fã mesmo sem te conhecer =) Continue privilegiando os seus leitores ;D
Hugo, o que eu leio e em termos de estatísticas parece que a Europa é mais xenofóbica no geral. Os EUA estão acostumados com imigrantes pois o país inteiro é populado por eles (há uma população indígena, mas não é a maioria).
Os americanos, diferentes de muitos brasileiros, sabem de onde suas famílias vem, e dão muita importância. Você pergunta à um americano da onde a família deles é e eles dizem “sou italiano”, “sou irlandês” “sou…” aqui todos são filhos de imigrantes. O próprio Obama é filho de um imigrante.
Por isso os americanos vivem dizendo, com orgulho, que os EUA é uma nação de imigrantes.
Obrigado pela resposta, Bia, é realmente como eu imaginava. O que me chama a atenção é que os países europeus, em geral, tem uma população mais envelhecida, como se pode ver nas “pirâmides etárias”, o que, junto a uma taxa de natalidade baixa, não promove a renovação da população. Sendo assim, essa xenofobia não faz muito sentido numa perspectiva de falta de mão-de-obra futura.