Essa é uma pergunta que quase todos já deram um palpite. Dizem que responder a essa pergunta é o primeiro passo para discutir aborto, pesquisa com células-tronco, manipulação de embriões. Eu discordo. Vou tentar mostrar neste texto a minha visão sobre o começo da vida e qual a importância disso para a discussão do aborto.
A vida se inicia, de fato, na fertilização, isto é, no encontro dos gametas (espermatozóide e óvulo). Antes disso, existem apenas os gametas, que são células com a metade do material genético de um indivíduo, logo, são impossibilitadas de gerarem vida sozinhas. Por isso eu digo que o início do desenvolvimento da vida parte deste encontro, mas este por si só não define uma vida.
Porque não adianta ter um embrião se ele não conseguir continuar seu desenvolvimento. Se ele não se implantar na parede do útero, será descartado, encerrando a vida que havia começado. Se ele não desenvolver sistema nervoso, circulatório ou qualquer outro, também morrerá. Se ele estiver pronto e, numa situação hipotética, não sair do útero da mãe, também não adiantará.

Um pequeno embrião humano.
A vida se compõe dessas pequenas etapas: inicia-se na fertilização, continua na implantação, desenvolvimento de órgãos e sistemas e nascimento. A partir daí, o seu destino dependerá do comportamento da mãe, e não mais da sua biologia. Isto quer dizer que se uma mãe quiser interromper a vida do filho recém-nascido, basta não amamentá-lo. Mas esta mesma mãe não conseguiria interromper o desenvolvimento de sistema nervoso.
Quando se discute aborto, tenta-se mascarar a discussão. Os católicos, por exemplo, definem que a vida começa na fertilização e pronto, tudo o mais já é vida. Isto é uma bobagem, porque eu posso pegar células do seu corpo e mantê-las vivas em laboratório. Elas têm vida? Sim, possuem material genético, se multiplicam, têm metabolismo etc. Elas são uma vida? Não, porque não dariam origem a um organismo.
Os cientistas, no geral, dizem que a vida começa quando há formação de sistema nervoso. Também não faz sentido. O que há antes disso então? Um bolo de células e mais nada? Pode não ter um sistema nervoso desenvolvido, mas tem o programa e todas as ferramentas para formá-lo, é só uma questão de tempo. Ele está latente, esperando chegar no momento certo para ser desenvolvido. Logo, existe vida antes dele.
Onde quero chegar com isso? Quero mostrar que o debate do início da vida não é importante para se legalizar ou não o aborto. Interrompendo o desenvolvimento do embrião quando há apenas uma célula, ou do feto com oito meses, se estará fazendo a mesma coisa: interrompendo uma vida, ou se preferir, uma vida em potencial.

Slogan sobre aborto.
Sou favorável ao aborto, mesmo sabendo que se estarão interrompendo vidas. Não posso ser hipócrita, mascarar uma realidade. Dizer que a vida começa quando há sistema nervoso é limpar a consciência, porque abortar o feto antes dessa etapa não seria problema, já que não haveria vida mesmo.
Definir um período no qual se poderia abortar é uma questão de ética. Não dá para permitir que se aborte um bebê de nove meses, prestes a nascer, pois além de já poder viver fora do útero, haveria muito sofrimento e seria arriscado até para a mãe. Agora, se podemos minimizar o esforço e o sofrimento, abortar antes do desenvolvimento do sistema nervoso é uma saída, pois o embrião é bem pequeno e não sente dor. Não disse que não está vivo, e sim que seria o mais indicado para a prática abortiva.
Logo, a discussão do aborto tem que adquirir um viés mais pragmático, porque nunca se estará, como defendo, driblando a questão de “matar ou não” um indivíduo. Se o efeito da legalização do aborto será benéfico para a sociedade, sobretudo para mulheres, vejo mais razões para defendê-lo. Parece desumano, mas não é, e não vou discutir neste texto as vantagens de interromper uma gravidez indesejada, isso fica para depois.
O que importa é: existe uma vida em desenvolvimento dentro do útero, interrompê-la no início ou no fim é indiferente. O que deve-se fazer é estabelecer critérios para minimizar os problemas que o aborto pode causar, tanto para o feto quanto para a mãe.
Parabéns pelo texto. Parece que certos assuntos nunca deixam de “dar pano pra manga”, polêmicos que são. Concordo com você que pode até haver vida a partir da fertilização, mas que essa não teria mais valor que um punhado de células qualquer, como as cancerígenas que por sua extração não fazem o indivíduo “matar” a si mesmo; já que não têm em sua essência a humanidade, pela qual eu entendo consciência e sentimentos. Estou, aliás, te parafraseando, já que não tenho muito a falar além do já dito. As pessoas, aparentemente, não desenvolvem raciocínio algum, como esse perfeitamente lógico, para condenar certas coisas indo pelo senso comum. Daí me ocorre seu texto sobre a homossexualidade, que, como esse, também me lembra do enunciado de Maquiavel: “Os preconceitos têm raízes mais profundas que os princípios.”
(assim como a Bia)
Foi ótimo conhecer o blog, os textos têm uma ótima qualidade, por favor, não deixe de escrever
Hugo,
Eu entendo seu raciocínio e acho que em parte esse se aplica ao mesmo texto. Mas eu não disse que o primeiro punhado de células que temos não tem nenhum valor especial. Por mais que não tenha consciência e sentimentos, defendo que aquele punhado de células é precursor da consciência e dos sentimentos, logo, têm uma valor especial. A questão é quando podemos abortar ou não. Nesse caso, seria melhor abortar antes de desenvolver sistema nervoso, por causa da dor e tudo mais. Mas um punhado de células do embrião vale mais do que um punhados de células que extraio de um adulto ou de um punhado de células cancerígenas.
Entretanto, concordo contigo que as pessoas não desenvolvem raciocínio lógicos, com sentido, e vão muito pro senso comum ou ideias superficiais. O seu argumento tem uma lógica, mas eu não concordo com parte dela.
Abraços e obrigado pelo comentário,
Ola Adriano! Gostei muito do seu testo, que trata sobre o aborto, isso vem a confirmar a cada dia,” Para Mim,” na existencia de um criador, que nada é um acaso, sou cristão, todavia não sou fechado as questões complexas e o seu testo, ilutras bem o tema quando diz: A onde começa a vida.
Sou contra o aborto, ninguem tem o direito ainda por medida de lei, tirar a vida de ontrem, só no caso de vida de risco da mãe. A inda que o ser não venha a sentir dor, porque dor, depende o estado de espirito e a miha fala é o lado emocional porque, alegria, tristeza, rejeição é um estado de epirito e sentidor dor, ou não, é muito relativo.
até porque o féto mesmo ligado a mãe, ele não é um ser independente com suas caracterisca proprias? Podendo até ter sintomas psiquicas e emocioas de suas gerações de avô bisavô e outras? Porque tratar esse caso como se foce rancar um dente? E as consequencias emocionais?
Adri, temas polêmicos são os meus preferidos!
Como biológos, sabemos que a definição de vida não é tão trivial quanto se pensa e pode ser que ainda não chegamos a um conceito ao menos temporariamente satisfatório (basta pensarmos no caso dos vírus). Mas isso é uma problema que incomoda mais a acadêmicos, creio eu, do que à sociedade em geral. A esta o que mais importa é saber julgar o que é ou não vida quando se trata de questões como aborto ou pena de morte.
Mas também acho que esse não é o ponto mais importante para a discussões sobre a legalização ou não do aborto.
Na minha opinião, o que se deve tomar como prioridade é a vida (aqui com um significado que vai além do biológico) da mulher, sobre a qual não restam dúvidas quanto a sua existência. Acho mais justo defender uma vida já consolidada do que uma vida que pode ser apenas uma probabilidade. Isso, obviamente, não significa que eu despreze a vida pré-nascimento…
Bem, isso é apenas uma parte da minha opinião sobre o assunto, que merece muito mais parágrafos do que um mero comentário, rs.
Bjs.
Carlos José,
Aborta não é igual a arrancar um dente. Aborto é um ato de imensa responsabilidade, e que deve ser muito bem pensado pelo casal. Mas, entre a mulher carregar uma gravidez de 9 meses indesejada, e depois ter que lidar com o fardo de ter um filho que não pretendia, penso que o aborto seja uma saída. Casos como estupro, risco de morte e anencefalia, para mim, está mais do que claro que não faltam motivos.
A dor a que me referi no texto não é a mesma dor que a sua. Me referi à dor como um processo desencadeado pelo sistema nervoso que sinaliza para perigo. Se não há sistema nervoso, não há dor. Se não há consciência, também não há como ter uma dor mais sentimental, emocional. E o que você quer dizer com dor espiritual?
Abraços
-//-
Camila,
Não entendo muito o que diz com uma “vida que é só uma probabilidade”. Para mim, é vida. Pode morrer naturalmente, claro que pode, mas já tem uma vida.
Beijos
Sim, biologicamente é vida. Nesse caso, vida tem um significado mais amplo, envolvendo também um aspecto social.
Entendeu?
Se a questão do aborto se resolve simplesmente pelo fato de evitar-se a dor e matando um ser, com direito a viver como todos nós, estaríamos, também, dando aval a matar um adulto, ou mesmo uma criança sem dor. Poderíamos, então aplicar uma injeção que fizesse a pessoa adormecer e morrer? Nesse caso não seria um crime se seguíssemos tal raciocínio que é por demais egoísta, a meu ver.
parabéns é um bom conteúdo
Luciene,
Entendo o seu ponto de vista, mas discordo. Na minha visão do início da vida, que se iniciaria na fecundação e se desenvolveria até o momento em que o feto possa sobreviver fora do útero (que se dá pelo 7º mês, aproximadamente), ainda não se trata de uma vida completa, logo, está dentro do que é compreendido na discussão de aborto.
Este argumento não é válido para crianças e adultos, pois neles já não se interrompe mais o DESENVOLVIMENTO DA VIDA, e sim uma VIDA já formada. É uma distinção sutil? É claro que é. Não tem como não ser sutil diferenciar a morte de um embrião e de uma adulto que viria daquele embrião, visto que são, no fundo, a mesma pessoa.
Mas o aborto tange justamente neste parte sutil da questão. Eu poderia simplesmente dizer: “antes de tal etapa o embrião ainda não tem vida”. Se não tem vida, está morto. Logo, matá-lo não fará diferença nenhuma, pois não se mata duas vezes a mesma coisa. Entretanto, eu coloco um terceiro elemento, que não é a vida, muito menos a morte: a vida em desenvolvimento.
Dentro desse terceiro elemento, matar sem sofrimento parece ser a maneira mais sensata de interromper o desenvolvimento, posto que sou favorável ao aborto e quero, sim, que as famílias, sobretudo as mães, possam decidir pela continuidade da gravidez.
Abraços