O longa-metragem Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, 2006), do francês Alain Resnais, possui muitas peculiaridades: não tem um protagonista, ambienta-se em três ou quatro cenários, deixa um final em aberto e, uma curiosidade, está há vinte e um meses em exibição no cinema HSBC Belas Artes, em São Paulo.
A história, que gira em torno de seis personagens que direta ou indiretamente se relacionam, conta um pouco da solidão, resultante, talvez, dos encontros e desencontros. Numa Paris fria, sob constante neve, as personagens, pelo contrário, buscam um pouco de companhia e afeto, numa rede de relacionamentos que vai se fortificando ao longo do filme até que no fim se reverte novamente em solidão.

Thierry (Andre Dussolier) é um corretor de imóveis solteiro que procura um apartamento para o casal em crise Nicole (Laura Morante) e Daniel (Lambert Wilson). Daniel está desempregado e refugia-se nas bebidas, passando grande parte do dia contando seus problemas para o barman Lionel (Pierre Arditi). Este último contrata a cristã Charlotte (Sabine Azéma), colega de trabalho de Thierry, para cuidar de seu pai doente, mas não sabe que ela esconde fantasias eróticas. Thierry também é irmão da solitária Gaëlle (Isabelle Carre), caçula que inicia um romance com Daniel, assim que ele e sua mulher decidem se separar.

Charlotte e Lionel
Ou seja, deu para perceber que a história é um nó de relacionamentos, todos eles fracos e efêmeros. A neve que cai sobre Paris é, metaforicamente, o sentimento das personagens embora eles procurem se “aquecer”. A resolução do filme não é o foco, poderia ter acabado do mesmo jeito que começou, isto é, não coloca um ponto final na melancolia. O foco está mesmos nos dramas que vão se desenrolando. Além disso, em cada cena contracenam geralmente dois ou três atores. Os seis em nenhum momento ficam juntos, o que reforça a ideia de isolamento.
Uma característica interessante do filme são as câmeras. Muitas vezes filmando as cenas por cima, tiram um pouco da intimidade da cena. A trilha sonora também cumpre o seu papel, sendo bem serena. Entretanto, não deve ser um filme que agrade a todos os gostos, por falar nas entrelinhas e ser, à primeira vista, um drama sem graça. Lembra um pouco o filme As Horas, que também não foca em uma personagem e trata bastante da solidão.