México é uma terra de contrastes. Uma nação fortemente católica que ainda celebra seu passado pré-cristão. Com cidades cosmopolitas e grandes, mas ainda assim com a maioria do território rural e conservador. No ano passado, o governo liberal da Cidade do México legalizou o aborto nas primeiros 12 semanas de gravidez.
A obstetrícia Laura Garcia viu o movimento como uma vitória. “É um grande sucesso para as mulheres mexicanas. Para mim é muito importante, pois eu sou uma mulher mexicana.” ela diz. Hospitais das cidades agora oferecem abortos de graça para residentes. A doutora Garcia e outros que suportam a lei dizem que isso faz com que haja igualdade econômica para aqueles que não tem dinheiro suficiente para médicos particulares e clínicas, que durante anos ajudaram silenciosamente algumas mulheres.
Doutor Armando Ahued é o ministro de saúde da Cidade do México, e disse: ”antes dessa lei ser passada o procedimento ainda eram feitos, eles eram apenas mascarados como ‘complicações’, e as únicas pessoas que poderíam faze-lo eram mulheres de classe alta”.
Mas nesse país profundamente católico, mudar a lei pode ser mais fácil que mudar os comportamentos sociais. Ainda que uma pesquisa recente mostrou que o apoio à lei está crescendo, pelo menos 70% dos médicos que trabalham nesses hospitais se recusam a fazer esses procedimentos.
“O que a Igreja pensa sobre os médicos que executam esses procedimentos?” perguntou um entrevistador da Worldview, e Hugo Valdemar, um padre, respondeu: “Nosso trabalho na Igreja é lembrar os médicos que a prioridade deles é salvar vidas, fazer o que for necessário para salvar vidas. Esse é o trabalho deles. E daí, se eles são católicos, nós os lembramos que isso é um grande pecado, e que executar isso vai contra a Igreja. É fora das nossas crenças”.
A Dr. Garcia diz que ela pagou um preço alto pela sua sinceridade. “Você já teve medo?” perguntou um repórter, ela respondeu que “Sim, eu fui ameaçada. No começo eu estava com medo, estava com medo de ser machucada fisicamente, mas eu sou uma lutadora, e a minha convicção é ajudar. Eu não me importo o que aconteça, eu tenho que ajudar esse programa, pois ele é muito importante.” É muito importante para ela, principalmente, pois ela tem visto o que acontecia antes do aborto ser legalizado. “Antes de ser legal, e isso foi uma das razões pela qual eu comecei o programa, eu vi casos de mulheres que morreram por causa de abortos arriscados”.
Uma pesquisa mostrou que aproximadamente mil mulheres morrem a cada ano no México por causa de aborto arriscado. Na região inteira, apenas a Cidade do México, Cuba e Guiana legalizaram o aborto.
“Minha irmã terá um aborto nessa clínica” conta uma brasileira no México, ela não mora no México, mas a irmã dela vai tirar vantagem dessa lei na Cidade do México. Os oficiais da cidade dizem que das 14 mil mulheres que tiveram aborto nas clínicas desde que a lei passou, 30% vem de fora da cidade. “Embora seja ilegal, muitas mulheres brasileiras tem aborto. De fato, eu acho que todas nós temos amigas que fizeram [sic], e alguns casos foram muito arriscados.”
Os dois lados concordam que a lei afeta não apenas a capital. “Nós estamos preocupados que vai se espalhar para outros estados” falou Jorges Limon, o líder de um grupo anti-aborto na Cidade do México. “Nós também estamos preocupados que o México está dando um mal exemplo para outros países na América Latina”
Mas já que o supremo tribunal mexicano votou a favor da lei, oponentes têm poucas opções legais. Eles focam em mudar corações e mentes, com propagandas religiosas, ou mostrando bonequinhos bebês que são, supostamente, fetos.
Hugo Valdemar contou que “as pessoas estão perdendo a idéia do que é sagrado. A voz da Igreja não conta mais na vida das pessoas como antigamente. Em alguns casos, mesmo se eles forem católicos eles ainda se sentem livres para tomarem suas próprias decisões, o que nos preocupa”.
Dr. Garcia é uma católica praticante, por mais que de acordo com a Igreja, por causa do trabalho dela, ela foi automaticamente excomungada (expulsa). Ainda assim, ela diz que ela está disposta a arriscar sua alma imortal pela sua convicção. “Uma vez me perguntaram se eu estava com medo de ir para o inferno por causa do que eu estou fazendo. Eu não tenho nenhum medo disso, se eu for para o inferno é por causa de outras coisas que eu fiz, não isso”.



Esta lei é um avanço mesmo.
Engraçado é a Dra. Garcia, provocante: “Eu não tenho nenhum medo disso, se eu for para o inferno é por causa de outras coisas que eu fiz, não isso”. Que outras coisas, rs?
Muito informativo, Bia.
Olá Dra. Garcia.
Minha dúvida é se após um aborto, a mulher ainda poderá ter filho quando decidir ter.
Obrigado.