Hoje eu ia à exposição da Bossa Nova, na OCA do Ibirapuera, com duas amigas; chegamos no ponto e esperamos o ônibus, esperamos, esperamos, esperamos, e então decidimos ir pro Conjunto Nacional na Paulista, que ia ser mais rápido, e com muito mais opção de ônibus. Entramos e demoramos só no trânsito. Isso me lembra esse texto que li no Estadão, com a música maravilhosa “Chega de Saudade”:
Nossa! Já são oito da manhã! Perdi a hora…Vai Marco, mexa-se! Tem reunião às nove. Um banho rápido, café, um terno e rua. Pra minha tristeza, o trânsito está ruim, como sempre. O que fazer?
Liga pra Dani e diz a ela que vai atrasar. Boa idéia! Quase esqueço o celular. E a gravata, sem ela não pode ser. Alô? Caixa postal! “Dani, liga para a Ana e diz-lhe que estou a caminho.” E numa prece, quem sabe eu chego. Espero que ela regresse com os relatórios, porque eu não posso mais sofrer com essa pressão de atrasos.
No rádio está tocando Chega de Saudade. Legal, a bossa nova completa cinquenta anos. Mas a realidade é que o trânsito está horrível. Deve ser essa rotatória nova, mas sem ela não há paz nesse cruzamento. E não há beleza nessa rua. Cortaram as árvores, esse caminho agora é só tristeza e a melancolia reina.
E agora esse caminhão que não sai de trás de mim…Não pára de buzinar. Sai de mim, ô meu! E o cara não sai…
Nossa! Já são nove e dez! Acho melhor ligar e avisar que eu vou atrasar. Mas se ela voltar sem os documentos? E se ela não voltar? E eu dependo desse contrato.
E a Carol, hein? Que coisa linda. Nem acredito que estamos namorando. Que coisa louca ontem à noite…Vou chamá-la para almoçar. Ela trabalha logo ali no Largo do Batata. O trânsito deve melhorar, pois há um novo acesso na Marginal.
Puxa, dez horas, perdi a reunião. Quase duas horas andei menos de um quilômetro. Se ao menos tivesse peixinhos a nadar no Rio Pinheiros…E esse mar de carros. Nada do que eu queria.
Alô Carol? Vamos almoçar? Claro, pode esperar os beijinhos que eu darei na sua boca. Imagina ela dentro do meu carro, dos meus braços? Os abraços hão de ser inesquecíveis. Milhões de abraços. Mal posso esperar.
Já são onze e meia. Meu horário ficou apertado. Assim é melhor esquecer a reunião. Vou direto para o restaurante que é colado no escritório. Assim ganho tempo e não fico calado. E assim chego na hora.
Tudo parado e já são uma e meia. Nada de abraços e beijinhos e carinhos durante o almoço. Sem chance. Isso parece não ter fim. Melhor colocar a gravata, vou chegar em cima da hora pra reunião das três…
Alô? Carol? Vamos ter que desmarcar o almoço. Já são quase quatro, vou passar na firma. Que tal um happy hour? Te pego aí no teu trabalho.
Alô? Oi Dani, tudo bem? Já estou a caminho, mas cancela a reunião das dezessete. Tenho que mandar um e-mail que é pra acabar com esse negócio de atraso dos funcionários.
Nossa, vai dar cinco e meia. Alô? Carol? Melhor a gente jantar, já que você não consegue viver sem mim, né? Até daqui a pouco.
Anoiteceu. E meu carro parou. O QUE FOI AGORA?
Acabou a gasolina. Vou ter que empurrar pro acostamento. Alô? Carol? Tudo bem? Nosso jantar não vai rolar. Meu carro…Vou ligar pro guincho, amanhã eles tiram…
Escuta, quer casar comigo? Aceita? Que legal! Vamos mudar daqui? Não quero mais este negócio de você longe de mim. Amanhã a gente fala melhor. Vou ter que voltar pra casa a pé.
Beijos. Também te amo. Tchau.
Texto feito por: Marco Barcellos. Tirado do Estadão.
rs, adorei! perceba a distorção dos tempos? rs…
distorceram toda a música… o rapaz pede a guria em casamento pelo telefone..
mas acontece mesmo, em relação a música, pessoal prefere ouvir aquelas que acabam com as mulheres, tonando-as vulgares e descartáveis, agora, repare como Vinicius compõe, declama a mulher… acho que nasci na época errada!
aaah, mas vc acabou indo na Oca? se não foi, vá, “Que coisa Linda”!!!
Cara Bianca,
Houve uma interpretação um pouco “distorcida” sobre o meu Conto, selecionado pela equipe do Estadão no concurso sobre “Bossa Nova”. Resumindo. a minha intencão foi o contrário, ou seja, homenagear as mulheres.
Esse conto, que é uma ficção, mas bem próximo da minha realida em Sampa, trata de um conflito de um rapaz apaixonado que tenta de todas as formas encontrar a mulher da sua vida (almoço, happy hour, jantar) e é “derrotado” pelo caos do trânsito… Mas não desiste de seu foco e prefere abrir mão de tudo da metrópole para viver com a mulher da sua vida. Por isso, pede ela em casamento pelo celular e a convida para sair de Sampa pois “não quero mais”. Essa era a intenção e foi percebida pela maioria das pessoas. Espero ter te esclarecido.
A propósito, sou um cara bem “feminista”, no bom sentido. Inclusive, o “rapaz” sou eu mesmo e a “Ana” é a mulher da minha vida. Minha esposa e mãe das minhas duas FILHAS.
Se vc quiser conferir, veja a homenagem que fiz a ela e às outras mulheres no meu Blog, lá trás em Março…
http://blogclientesa.clientesa.com.br/clubedolivro/default.asp?blogID=238
Não ache que vc nasceu na época errada. O nosso tempo é o nosso, e pronto. Basta acreditar que o importante não é a “chegada”, e sim o que aprendemos pelo caminho.
Um abraço e obrigado ao Blog pelos comentários!
Marco