a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)José Paulo Paes
Esse poema do José Paulo Paes demonstra muito bem o problema do conformismo. O que é pior que a torneira seca, a luz apagada, ou a porta fechada, é a nossa falta de vontade de beber a água, acender a luz e abrir a porta. Nota-se que todas as três coisas são bastante poéticas e filosóficas. Sede pode ser vista como a sede pelo conhecimento, beber a sabedoria, beber a realidade, beber a “verdade”. A luz apagada: a falta de visão, os que vêem mas se recusam, os que não querem ver, aqueles que gostam de estar alienados, não querem saber do que se passa, não querem ver o mundo de verdade. A porta fechada: se a verdade está “lá fora”, isso é, não no nosso mundinho, a falta de vontade de abrir a porta é extremamente importante, queremos estar dentro do nosso quarto, da nossa sala, do nosso interior confortável; “pra que?” as pessoas perguntam, pra que tentar ver outra realidade?
As pessoas se conformam e se acomodam muito rapidamente. Por comodismo pessoas curiosas não começam o hábito de ler mais, por conformismo pessoas inteligentes não tentam mudar algo, por causa do hábito -de não fazer nada, também- nada é feito. Sêneca escreveu que não há nada pior que perder o tempo por negligência, mas é isso que a maioria da humanidade faz. Temos nossa rotina e não queremos muda-la por uma causa que muitas vezes é considerada perdida. “O Brasil? Nossa, esse país não tem jeito”, mas quem são piores são os que falam isso.
Liga-se a T.V, assiste-se uma novela, compra-se um carro, joga-se uma bola, ô vida boa. Dê uma cerveja e uma bola pra um brasileiro comum e ele está feliz, adicione uma gostosona com nada na cabeça então…Bem, pode ser dito que aprenderam na Bíblia a imaginar o céu com onze virgens. Eu nunca gostei desse céu, e é claro “no céu, todas as pessoas interessantes estão faltando” (Nietzsche)
E eu? Que ainda vejo, que sou consciente. Eu, que tenho lido e pensado tanto sobre ser uma “pensadora livre”, que tenho “apertado o peito hipotético mais humanidades do que Cristo” (Fernando Pessoa), que fico arrepiada ao ver criança na rua, que quase tenho um surto quando ouço falar que moradores de rua são todos vagabundos, que me sinto triste ao ver insultos aos moradores de favela. Eu também não faço nada. Nada.
Mas penso em fazer, penso! Será que vale algo? Cada um tenta mudar o mundo da maneira que pode. Será que é ridículo tentar fazer algum impacto com filme? Com arte? Com filosofias?
Mas não, eu tenho sede, não gosto do escuro, e se não tenho a chave eu dou um chute e a arrebento a porta! Sou muito mais conformada do que gostaria, na verdade sou uma inconformada que não sabe para onde ir. Tenho uma indignação angustiada, talvez por isso queira fazer filmes, para mostrar logo toda injustiça que vejo, sem papas na língua.
Ai, hoje eu saio, hoje eu me levanto da cadeira, ponho a boca no trombone, hoje, no mínimo, eu acordo alguém. Com foto, texto, filme, qualquer coisa que tiver em mãos. Hoje, com essas mesmas mãos, eu bato palmas para todos que me acordaram, eu sacudo uma menina lendo “Atrevida”; ainda vou dizer, pras granfinas nos shoppings, ”a vida num é só maquiage muié!”.
Pois a chave está do lado de dentro, só falta a vontade.