Arthur Schopenhauer nasceu em Danzig (Polônia) em 1788, estudou filosofia em Berlim e em 1819 publicou sua principal obra: O Mundo como Vontade e Representação.
Richard Dawkins nasceu em Nairóbi (Quênia) em 1941, educou-se como biólogo na Inglaterra e lecionou zoologia nos EUA, publicando sua obra mais importante, O Gene Egoísta, em 1976.
Mesmo após mais de cento e cinqüenta anos de diferença entre a publicação das duas obras, elas ainda compartilham muitas semelhanças em sua filosofia e, o mais interessante, sob uma abordagem bastante diferente, modificada principalmente pela importância da idéia de evolução que emergiu com Charles Darwin em 1859, período intermediário entre Schopenhauer e Dawkins.
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Schopenhauer, tido como pessimista, diz, em certo capítulo, que somos compostos de vontade (os nossos instintos, comum do nosso ser) e conhecimento (a individualidade de cada um). A primeira invariavelmente teme a morte, é objetiva, presente em todos; em contrapartida, a segunda é subjetiva, efêmera, nasce e morre conosco, e varia de um para outro. Sendo a nossa vida curta, o que realmente importa não somos cada um de nós, cada indivíduo, mas o conjunto, a espécie, esta sim duradoura.

Dawkins, assumidamente darwinista, defende que somos meros produtos de moléculas longínquas as quais ele chama de replicadores, pela capacidade de produzirem cópias de si mesma. Estes replicadores teriam evoluído por centenas de milhões de anos criando mecanismos, tornando-se mais eficientes e competitivos. Hoje, eles são conhecidos por genes e nós somos a sua máquina de sobrevivência, tanto nosso corpo quanto nossa mente, vivemos como que para protege-los.
Para ambos, existe a idéia de uma essência, presente na conservação da espécie (Schopenhauer) ou na preservação dos genes (Dawkins). No fundo, o sentido das duas teses é idêntico: um organismo vivo (genes intactos) possui o instinto de sobrevivência (vontade), de modo a se manter vivo e se reproduzir, passando os genes adiante e dando continuidade à espécie. Nos dois também se vê que a individualidade é ignorada, ou por ser um conhecimento efêmero, ou por ser uma carapaça descartável. Permanece a essência.
Um ponto no qual o filósofo se equivoca é chamar a nossa essência de indestrutível. Sendo a espécie a nossa essência, as extinções e especiações foram fenômenos recorrentes no processo evolutivo. Todavia, passando o conceito de essência mais precisamente para os genes, Dawkins poderia manter válida a noção de indestrutibilidade, porque por mais que sumam ou apareçam espécies, há uma ligação entre todas que remonta ao passado evolutivo, devido aos genes, condições essenciais para a vida. Neste sentido, a vida seria sempre indestrutível.
Entretanto, todos estes conceitos só poderiam ser definidos na era pós-Darwin, o que justifica a falta de articulação de Schopenhauer quanto à evolução. Agora, Dawkins pode dar uma roupagem mais atual, contribuindo para a tese da essência imortal (genes em si) em detrimento da individualidade efêmera (combinação de genes que dura uma vida).
Com toda esta relação, conclui-se notando que obras aparentemente distintas podem dialogar e inclusive se complementar, conforme novos conhecimentos surgem para a humanidade.