O relacionamento entre palavras e coisas é um tema o qual muitos tem escrito, discutido e -por que não?- pintado.
Magritte, um grande pintor belga, e Foucault, filósofo e historiador da França, são dois exemplos de pensadores que viram a relação entre o “significador” e o significado um assunto profundo e interessante.
O linguista Saussure, como os dois, também afirmou a arbitrariedade do sinal -isso é, a natureza histórica da ligação entre o que indica (o que eu escrevi como “significador”) (e.g., uma palavra) e o significado (o objeto ou conceito representado). Na linguística do Saussure, as palavras não “referem” a coisas em si. Ao invés disso, elas tem significados que são pontos dentro de um sistema inteiro, que é a língua.
“Cão” não está conectado com o animal real, vindo naturalmente da palavra e participando magicamente na sua essência e presença. Ao invés disso, “cão” tem um significado conceitual no qual ele da uma idéia que difere da idéia de um gato, um urso, um golfinho, etc. Ele tem um significado sintático (vindo da sintaxe da língua. Sintaxe é a parte da gramática que contém as regras relativas a ordem e combinação das palavras) -um significado sintático- na medida que ele (como um substantivo) difere de palavras como “latir” (verbo) ou “peludo” (adjetivo), e então não pode pegar seus lugares na proposição; e tem um significado fonético enquanto ele difere de palavras que soam parecidas, como “mão” “chão” etc.
Já que temos bom senso, isso pode parecer uma abordagem desnecessariamente complexa e circunlocutória (indireta) sobre a língua, direcionada apenas para o divórcio mais radical possível entre palavras e coisas. E pra que se incomodar com isso? Afinal, quem realmente discute que a palavra é o que representa?
Mas o fato é que nós realmente vemos as palavras como as coisas! E é aí que entra o Magritte:
-Isso não é um cachimbo
Tem como demonstrar essa idéia melhor? Nesse quadro Magritte está mostrando, claramente, um cachimbo, e escrevendo em baixo: “Isso não é um cachimbo”, por que é claro, a palavra não é a coisa. Mas quando a olhamos, nosso primeiro instinto é o de falar “é um cachimbo”.
Essa confusão de palavras com coisas não é meramente uma pequena confusão do dia-a-dia. Um acidente facilmente remediado. Desde a antiguidade ao presente, pensamentos do oeste têm concebido essa conexão entre língua e realidade como fundamentalmente mística, um compartilhar mutuo de essências. No Antigo Testamento, a Palavra é o começo (da Criação). Para os gregos, Logos conotava ambos a realidade e o conhecimento (logo a expressão) da realidade. Depois de babel (história Bíblica sobre a origem de várias línguas), o mundo foi “destruído”.
Mesmo com o começo da renascença, a Europa cristã continuou dando a Palavra –revelação religiosa- precedência sobre a razão. Durante o Iluminismo, os filósofos na sua maioria, tinham as coisas e palavras como mais que artificialmente ligadas. Mesmo hoje, minha mãe me fala pra bater na boca se eu falo a palavra “diabo”, eu ouço falarem “essa é a Bia”, embora eu não seja essa palavra: Bia.
A mística, Platônica identificação de palavras com a essência das coisas é o que várias telas do Magritte atacam. Como na lingüística de Saussure as palavras não se “referem” as coisas, no surrealismo do Magritte as imagens do pintor não “parecem” nada o qual a presença soberana ia doar seu aspecto como modelo ou origem. Quando nós dizemos que algo se assemelha a outra coisa nós estamos, afinal, implicando que o último é, de uma maneira, ontologicamente¹ superior, mais “real” que, o precedente – a cópia baseia sua existência no que ela imita. Desta maneira, o objeto na pintura não “parece”, se “refere”, se “assemelha” a nada.
Do Klee e Kandinsky pra frente, a arte moderna declara que uma pintura não é nada mais que ela mesma, autônoma da língua que está entrincheirada no realismo. Enquanto a pintura clássica tinha as telas como os objetos si próprios. E muitos outros pensadores viam as palavras sendo as coisas.
Kandinsky:
Klee:

Qualquer marca, qualquer rótulo, qualquer palavra ou símbolo, é -na sua maioria- vista como confirmaçãoes da sua existência, o símbolo é confundido com o que ele simboliza. A palavra é confundida com o que ela “representa”.
Por exemplo:
Esse é o logo do Jaguar, ele é um símbolo, mas o que ele essencialmente representa não é um carro. Ter um jaguar, afinal de contas, não é o mesmo que ter um fusca. O que o Jaguar, como símbolo, representa, é poder, dinheiro, status, sucesso, e até felicidade. Mas quem tem Jaguar pode não ter tanto dinheiro, de fato essa pessoa pode estar endividada só por que ela quer ter um Jaguar, ela pode não ter poder nenhum, pode ser um filhinho de papai apenas, mas como status é feito apenas com símbolos, ela ganha isso, enquanto a sucesso, não há nada “real” que ligue um carro caro com sucesso, e logicamente não há nada que junte o Jaguar com felicidade. Isso porém, não é visto, o símbolo é confundido com o que ele “simboliza”, a posse do Jaguar é transformada em sucesso, em poder. O relacionamento entre a marca “Kipling” e o que ela representa é totalmente disfuncional, ela só é vendida pelo preço que é pois nós compramos o símbolo.
A última ceia do Vinci representa a santidade de Cristo, seria uma blasfêmia cuspir nela, como é uma blasfêmia tacar um crucifixo no fogo. Mas a pintura é apenas uma tela com tinta…Não há nada, absolutamente nada, sagrado nela. E o crucifixo, é apenas dois pedaços de madeira. O que eles são -de verdade- vale muito menos do que eles representam.

A própria reza. Qual a diferença ontológica que existe se eu digo “Seja feita a vossa vontade”, ou “Não, de maneira nenhuma seja feita a tua vontade”. O que importa são as palavras, ou o sentimento por trás delas? As palavras não valem nada -na realidade-, elas apenas indicam um significado, não há conexão nenhuma entre as palavras -a reza- e o que ela representa.
¹ ontologiaé o estudo do ser, do grego ontos, “ser”, “ente”; e logos, “saber”, “doutrina”
(Baseado, retirado e inspirado no livro “Isso não é um cachimbo” do Foucault)
::Depois eu escreverei um post sobre a pintura do Magritte em si::

Bom… Eu adoro essa discução de semântica que vc fez. Eu penso muito no que as coisas realmente são e o que elas representam. Enfim, ótimo post! Quero ver o próximo!! ;D
beijos
Gostei do post e do fato de seu texto discutir as idéias de significado e significante de Saussure. Estudo Linguística e é raro ver isso num blog.
É uma pena que hoje a maioria das pessoas seja incapaz de fazer essa dissociação.
http://culturalema.wordpress.com
Ola, estou querendo tatuar um pentagrama em minhas costas, pelo seu conhecimento, esta seria uma boa idéia em relação ao seu significado??