Há um tempo atrás, (bom tempo atrás), eu estava na minha aula de semântica (minha preferida), e minha professora deu um exercício à sala. Ela pediu para que nós pensássemos em uma frase que:
- Não fosse uma opinião
- Não fosse falsa
- Não fosse verdadeira
- Fizesse sentido
- *Não fosse uma pergunta
*-não tenho certeza se tinha isso, mas estou adicionando.
Bem, algumas pessoas conseguiram, outras não; ela não deu a resposta para os que não conseguiram, disse que tinham que pensar. Eu fui uma das que consegui, e vou colocar aqui no blog, embora gostaria que as pessoas pensassem antes, há várias respostas para isso, e há várias maneiras de se chegar. O meu jeito foi:
-Estou mentindo agora (I’m lying right now).
Logicamente o paradoxo é fácil de se ver. Se estou mentindo, então estou mentindo que estou mentindo, logo estou falando a verdade, mas se eu estou falando a verdade eu estou mentido, e assim vai.
É claro que eu amei esse exercício, é muito interessante saber que a língua tem esses paradoxos, tanto Português como Inglês (e Francês, Espanhol etc.). Quando nós estávamos conversando sobre o exercício ela perguntou o por que que isso acontece, como pode haver paradoxos assim. Então ela deu outro exercício no qual nós fazíamos três colunas, daí ela daria duas palavras, opostas, e nós teríamos que pensar no “meio,” numa palavra que fosse um pouco as duas, só que apenas uma palavra. Por exemplo:

Há muitas outras palavras, eu só dei uns exemplos, mas eu quase não consegui pensar na coluna do meio. O que é perdido não é encontrado, o que não está fechado está aberto, o que é impossível não é possível…Esse exercício é praticamente impraticável. E por que? Por que nós não temos uma palavra para algo que não é verdade nem mentira? Ou paz e guerra? Por que não conseguimos achar um meio termo?
Isso foi o que ela nos perguntou, e o que eu me perguntei. É muito interessante ver que algumas pessoas pensavam diferente de mim também. Umas falaram que “normalidade” está entre guerra e paz, mas para mim isso é paz, se não há guerra…Só pode haver paz. O que é quase ridículo, na minha opinião, pois mesmo não estando em guerra nós não temos paz (no Brasil por exemplo). Outras falaram que “encontrando” está entre achado e perdido, mas para mim isso é perdido, se uma coisa não é achada ela tem que estar perdida. Ainda teve algumas que falaram que “provável” está entre impossível e possível, mas eu não concordo, provável é algo totalmente diferente.
Logo eu fiquei pasma, nossa língua é paradoxal, nós não temos os recursos necessários para pensarmos de maneira diferente. Por isso que é possível criar um paradoxo como o da frase. Só que é claro que a lição não para aí, língua mostra como nós agimos, pensamos, ela mostra nossa realidade.
E que realidade é essa, então? Pode parecer idiota ficar batendo na tecla “nós não temos meio termo,” mas isso é uma coisa realmente importante (pelo menos pra mim). Quem nunca disse “X é feio, Y é bonito”? Ou, quem nunca ouviu “ou você está comigo, ou está contra mim”? Isso são “two-valued orientation” (orientação de dois valores), quando nós só pensamos “preto e branco” e não vemos o que está entre eles.
Eu vou me colocar como um -mal- exemplo:
Quando eu era menor eu achava que as pessoas ou eram inteligentes, ou conformistas (e capitalistas). Não entendia como uma pessoa poderia ser um pouco conformista e um pouco inteligente, como uma pessoa poderia se importar com o celular mais novo e ao mesmo tempo fazer questão de reciclar. A maioria das pessoas eram simplesmente classificadas como hipócritas, por que, é claro, com esse pensamento todos são! Mas as pessoas não são assim, elas não são inteiramente boas ou inteiramente ruins, elas não estão às vezes totalmente ao seu favor, ou inteiramente contra. Nós somos MUITO mais complexos que isso, muito mais complicados que esse fenômeno da nossa língua.
- Ou você é de direita, ou de esquerda
- Ou você é generoso, ou é egoísta
- Ou você é responsável, ou irresponsável
- Ou é gentil, ou é cruel
Está aí, então, a conexão entre um paradoxo na língua e muitos problemas globais. Nós temos que saber que, embora não haja uma palavrinha, as coisas não são extremos.
(Outra frase para o exercício pode ser “Isso não é uma frase”)
Bia, adorei o texto, parabéns,
O texto começa bom, bastante interessante (eu já conhecia o paradoxo do verdade-mentira só que contado de outro jeito, aqui no Brasil te falo, rs), depois começa a adquirir um carater duvidoso que eu já fico meio ‘assim”, e termina com um desfecho que explica tudo e fecha muito bem.
Você mandou bem neste texto. Deixa bem claro que, na língua, às vezes aquilo que chamamos de nuances na verdade só confimam um dos dois extremos. Porém, na vida real, não podemos ser tão extremistas assim, tanto conosco mesmo, quanto ao classificar os outros.
“Mas as pessoas não são assim, elas não são inteiramente boas ou inteiramente ruins, elas não estão às vezes totalmente ao seu favor, ou inteiramente contra”. E eu me sinto que me incluo nisso também.
Quando olhamos o “outro lado”, entendemos também as razões daquela pessoa. Ninguém faz uma coisa à toa, e é hipócrita chamar de “louco” aqueles que pensam diferente de você sem antes ouvir as suas razões.
Parabéns.
E por que não pensar que entre o certo e errado não existe nenhuma distância? O que é errado para mim pode ser certo pra você, e vice e versa. Na verdade os paradoxos se interagem, aí que formamos o senso-real/irreal crítico. O que prevalece é o individual. O meio em que cada um vive e os acessos que os orientam e os disponibilizam.
Na verdade não existe verdade, na mentira não existe mentira. Depende de como cada um compreende e interpreta e/ou interpela cada situação.
Pense na cultura de cada nação, existe paradoxos de bases aos extremos! Oriente Médio versus Ociente. Não há menção para julgarmos meio-termos. Se levantarmos argumentos justos caimos sem saber a forma justa de se levantar.
Dentre a distância deste paradoxo, prefiro pensar no ser a ser flexível. Compreender os sentidos por meio das vontades. Acionar as vontades pelos sentidos. E sentir, compreender, desentender e recriar formas/fórmulas de habitar dentro e fora deste mundo coodificado.
Beijos (adorei seu espaço)
Bia: muito bacana o post. Pena q, por alguma razão, no meu computador não apareceu a tabela. Acho q o meio termo exato entre guerra e paz é armistício. Depois comento o resto. Parabéns pela página. Um beijo, anthony