De todos os temas em filosofia, um dos meus preferidos é o “quem sou eu?” A nossa identidade, a minha identidade, é uma coisa que me impressiona, nós nunca realmente sabemos que nós somos. Uma razão é que nós estamos em constante mudança, não sou a mesma do ano passado, e certamente, não sou a mesma de ontem.
Outra razão é que a nossa identidade é feita também pelos outros. Como os outros nos enxergam. Eu posso me achar uma pessoa super inteligente, mas se o resto do mundo não acha, eu talvez não seja (comparada aos outros).
Sartre, um filósofo francês, escreveu que a nossa existência é extremamente determinada pelos outros. Ele argumenta essa posição falando sobre a vergonha. Nós sentimos vergonha perto dos outros (o que ele chama de o Outro), então o nosso ser é, parcialmente, o ser para-o-outro.
Nós somos seres profundamente sociais. Se formos pensar, até o nosso pensar foi determinado pelo Outro. Nós pensamos em língua, em português (ou inglês, francês, alemão, chinês…), quando eu penso “o que eu deveria fazer hoje?” eu estou usando conhecimento que ganhei socialmente, o que eu aprendi gramaticalmente e como as pessoas ao me redor interagem. Eu não penso, por exemplo, com “qu’est-ce que je devrais faire aujourd’hui?” (francês). Ou eu não penso “hoje fazer deveria eu que o?” Eu penso em língua, mas não fui eu que fiz a língua, não fui eu que falei “essa letra aqui simboliza o som ‘a’” ou “amor é um símbolo para um sentimento de carinho, cuidado, atenção etc,” essas palavras foram dadas pra mim.
Sartre disse (mais ou menos) que nós só temos certeza da nossa existência (não certeza completa, é claro, mas um sentimento de certeza) por que outras pessoas nos vêem, outras pessoas falam com nós, ou nos escutam.
Um argumento ainda mais interessante é o de mentir para si mesmo, o que ele chama de “má fé” (mauvaise foi). O ato de mentir implica que a pessoa 1)sabe da verdade 2)mente de propósito. Mas quando nós mentimos para nós mesmos (o que acontece muitas e muitas vezes), nós somos, de uma certa forma, o Outro. Nós nos negamos nosso ser, viramos outro. E negamos também a negação. Esse paradoxo de negação, de “auto-negação” é muito interessante.
Heidegger, outro filósofo, chama essa mentira de “Mit-sein” (um “ser-com” outros no mundo). Ela pressupõe minha existência, a existência do Outro, minha existência para o Outro, e a existência do Outro para mim.
Quando nos olhamos no espelho estamos sempre de cara-a-cara com um infinito. O nosso ser nos reflete e nós refletimos de volta, sabemos que estamos nos vendo, por isso às vezes somos diferente quando nos olhamos no espelho. Nós nunca conseguimos encontrar a nossa “essência,” somos indefiníveis, somos parte o que os outros vêem, parte o que nós vemos, parte o que ninguém vê, parte o que fomos…Temos um infinito dentro de nós que está sempre se negando, se afirmando, afirmando a sua negação, e assim vai.
Com isso em mente eu tirei uma foto, que também foi inspirada por uma pintura do Magritte que eu amo. O filho do Homem no qual ele está com uma maçã verde no rosto.
Uma das maiores razões que eu gosto de arte é que ela tem, muitas vezes, muita filosofia por trás, e o que eu tento fazer, várias vezes falhando, na minhas fotos, é colocar um pouco de filosofia nelas. As pessoas normalmente gostam dessa foto, mas acho que talvez não vêem o que eu vejo, a razão pela qual eu gosto dela é essa negação, esse infinito indefinível dentro de nós:
Meu Infinito

Eu acho que essa questão (quem sou eu) remete também a Sócrates, que utiliza a maiêutica e a ironia para mostrar às pessoas que seus conceitos não esram realmente seus, e, por isso, elas mesmas discordavam deles e acabavam entrando em contradição.
Muito bom o texto, me fez lembrar que esta questão era mais frequente na minha vida algum tempo atrás e ficou meio esquecida, o que não pode acontecer, já que estamos em constante transfrmação.
Parabéns.
Abraços.
Mateus, sem dúvida essa questão também apareceu no Sócrates. Descartes também, com sua afirmação: “conquiste você mesmo ao invés do mundo.”
Enfim, não devemos esquecer essa pergunta mesmo =)
Beijos
Bia,
O texto está muito bom e bastante claro, conciso. É possível entender com facilidade mesmo não sendo um expert na área.
Aliás, acho importantíssimo este papel que você executa neste blog ao traduzir pensamentos de filósofos. Eu, por exemplo, talvez não leria algo do Sartre, mas fico satisfeito em saber que pessoas como você levam suas idéias ao público. Este tipo de diálogo é importante.
Parabéns pelo seu trabalho, continue fazendo isto.