O teatro do absurdo é um “estilo” de peça, podem ser descritas como surreais também, pois são peças, histórias e livros que são simplesmente absurdas, quem me conhece sabe que eu adoro surrealismo, tanto na pintura como na literatura e fotografia. Bem, o único problema em chamar esse estilo de “teatro do absurdo” é que você tem que deixar alguns escritores de lado, que poderiam entrar na lista. Como o Franz Kafka. Mas já que estou falando do Beckett vou deixar “teatro” mesmo.
O livro mais conhecido do escritor irlandês (que morou na França por muito tempo) é “Esperando Godot” (En attendant Godot). É uma peça com apenas dois atos sobre dois homens que esperam Godot, eles são o Vladimir e Estragon. A parte estranha, engraçada e trágica é que Godot nunca chega, e você, no final da peça, entende claramente que ele nunca chegará !
Na peça aparece também mais dois personagens importantes, o Pozzo e Lucky. Lucky é um escravo de Pozzo, ele está numa coleira e é mandado, mas não é um cachorro mesmo, é um homem, e por mais que ele seja o escravo, ele é mais inteligente que o Pozzo, pois pensava. Pozzo falava para o Lucky pensar, por que ele achava isso engraçado.
Pozzo e Lucky apenas passam por onde Vladimir e Estragon estavam esperando Godot. Porém, no outro dia Pozzo volta cego, e não se lembra de tê-los conhecido.
O livro pode ser engraçado, pois as falas são totalmente sem sentido às vezes, ou pode ser trágico, como é chamado às vezes “a tragicomédia em dois atos”. A razão dele ser trágico, e eu o achei quando terminei de ler, é que ele da uma sensação de desesperança e confusão, ele toca os mais profundos sentimentos de uma forma simples. Quem ler “Esperando Godot” e não entender isso, não entender a sua profundidade através de seus diálogos estranhos, não entendeu a peça.

No final eles falam bastante sobre o tempo “quando…quando…” :
“Vladimir: Depuis quand ?
Pozzo: [soundain furieux] Vous n’avez pas fini de m`empoisonner avec vos histoires de temps? C’est insensé! Quand! Quand! Un jour, ça ne vous suffir pas, un jour pareil aux autres il est devenu muet, un jour je suis devenu aveugle, un jour nous deviendrons sourds, un jour sommes nés, un jour nous mourrons, le même jour, le même instant, ça ne vous suffit pas? [plus posément.] Elles accouchent à cheval sur une tombe, le jour brille un instant, puis c’est la nuit à nouveau. [Il tire sur la corde.] En avant!”
-Tradução (feita por mim, portanto, não está maravilhosa rs):
Vladimir: Desde quando ?
Pozzo: [de repente furioso] Você não terminou de atormentar com essas suas histórias de tempo ? É abominavel! Quando! Quando! Um dia, isso não é o bastante pra você, um dia ele virou bobo, um dia eu fiquei cego, um dia nós ficaremos surdos, um dia nós nascemos, um dia morreremos, o mesmo dia, o mesmo segundo, isso não é o bastante pra você? [mais calmo].Elas dão a luz montadas numa cova, a luz reluz um instante, depois é noite mais uma vez. [ele balança a corda] Pra frente !
Essas duas partes que estão em negrito são muito boas para mim, são no final do livro. No final há vários diálogos interessantes, normalmente do Vladimir, que parece ser o mais sensato (pelo menos entre ele e o Estragon).
No começo eles falam que vão se matar numa árvore, e ficam falando coisas sem sentido sobre como ela não vai aguentar o peso etc…Eles resolvem não se matar, pois talvez o Godot venha esse dia. No final do livro eles resolvem partir, mas um deles diz “E se o Godot vir amanhã ?” e o outro reponde “Nós seremos salvos”. Eles resolvem partir, só que não se movem, só falam “vamos…” e depois [eles não se movem].
A peça “fala” sutilmente sobre a nossa condição humana, esperando sempre por um Godot que não existe ou que nunca chega. Sobre a nossa desesperança. A peça é sobre cada um de nós. Quem é Godot ? O que é Godot ? Ele existe ? Seria Deus ? Seria a liberdade ? Um objetivo humano inalcançável ? Seria a certeza de nossa existência ? (Pois a peça é existencialista).Samuel Beckett disse: Se eu soubesse, eu teria dito na peça.
O que nos leva a crer que não é o Godot em si que é importante, mas sim a sua espera.
Esse livro é muito bom, li no começo desse ano, em fevereiro, mas sempre quis escrever algo sobre ele aqui, para que mais pessoas o leiam. Foi um dos melhores livros que eu já li. Vale muito a pena.
Essa parte é um das falas que eu mais gosto, pelo Vladimir:
Preciso muito, de textos sobre o teatro do absurdo e sobre os autores, Fernando Arrabal etc.Trabalho com teatro e estou pesquisando sobre teatro do Absurdo, para uma leitura Dramatizada.
Também tenho algumas dúvidas sobre este estilo de peça. Gostaria de mais esclarecimentos.