Quem mora na cidade de São Paulo, certamente conhece o cinema Belas Artes. O cinema existe desde 1943, na esquina de duas das mais importantes avenidas da cidade: a Av. Paulista e a Rua Consolação. Desde sua fundação, o cinema foi uma referência da sétima arte. Infelizmente, o Belas Artes vai fechar as suas portas no fim de janeiro, o que representa uma perda imensurável para a cidade.
Um pouco de história

O cinema, quando ainda era Cine Ritz, em 1961.
Após ser fundado com o nome de Cine Ritz e, anos mais tarde, dar lugar ao Cinema Trianon, em 1967 passa uma reforma e ganha o tradicional nome Cine Belas Artes. Em 1983, passa por uma nova reforma, ganhando seis salas e se tornando o primeiro multiplex da cidade, com o nome de Gaumont Belas Artes.
Nessa reforma, cada sala recebe o nome de um grande artista brasileiro, a saber: Carmen Miranda, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Villa-Lobos e Mario de Andrade, cada um, inclusive, com sua respectiva área de especialidade: música e atuação, pintura, arquitetura, escultura, composição e literatura.

Espectadores aguardam abertura do cinema, em 1990.
Assim o cinema se manteve até 2002, quando entrou em crise e o seu fechamento foi anunciado. Mobilizando-se para manter o tradicional cinema, no ano seguinte o Belas Artes ganha um novo proprietário, André Sturm, e a produtora O2, do Fernando Meirelles, associa-se ao cinema. A possibilidade de fechamento do cinema resulta em protestos.
No fim de 2003, o banco HSBC passa a patrocinar o cinema, financiando uma grande reforma. O nome mais uma vez muda, passando a se chamar HSBC Belas Artes. Desde então, o cinema vem seguindo com sua programação que mistura lançamentos com clássicos do cinema, além do Noitão, evento que acontece mensalmente e conta com a exibição três filmes a partir da meia noite.
Por que o cinema vai fechar?

Protesto contra a ameaça de fechamento do cinema em 2002.
Em 2010, o cinema anunciou um possível fechamento após o banco HSBC encerrar o patrocínio. Seria impossível manter o cinema apenas com o dinheiro arrecadado pelos ingressos. Quando o cinema mudou novamente o nome, apenas para Belas Artes, o proprietário atual, ainda o André Sturm, passou a procurar empresas para um novo patrocínio. Essa demanda resultou, inclusive, em campanhas e abaixo-assinado virtual.
Um novo contrato estava sendo fechado no fim do ano passado, mas o proprietário do local, Flávio Maluf (surpreendentemente não é filho de Paulo Maluf, mas poderia ser…), pediu o imóvel de volta. Procurado pela reportagem da Folha, esboçou uma resposta: “Perderam o prazo” e mandou falar com o advogado, que não deu depoimento.

A fachada atual do cinema.
Sturm disse que Maluf rompeu o contrato. O proprietário afirmou que, após fechar o patrocínio, pagaria um aluguel de R$ 62 mil. Mesmo assim, Maluf ordenou o fechamento do cinema. No fim de janeiro, o Belas Artes fecha as suas portas e será demolido para a construção de uma loja, ainda não especificada.
Embora o encerramento das atividades do Belas Artes já esteja certa, Sturm e seu braço direito, Léo Mendes, afirmaram ter planos para reabrir as salas em algum outro canto da cidade e manter a programação tal qual originalmente, inclusive com os Noitões, que já chegaram a reunir, nas madrugadas, em torno de mil pessoas.
Considerações finais

O interior do cinema atualmente.
É uma perda muito grande o fechamento do cinema. O Belas Artes é um cinema de rua, condição rara na nossa cidade lotada de cinemas de shopping, extremamente comerciais e com preços exorbitantes. O Belas Artes é muito mais barato (cobrava, até o ano passado, R$ 8,00 de segunda e quarta e R$ 16,00 nos demais dias). Os Noitões custavam R$ 18,00. De segunda-feira, professores pagavam meia-entrada apresentando holerite.
O cinema funciona das 14h até o fim do dia, com as seções de filmes clássicos, chamada Cineclube, por volta das 19h30. Tem um ambiente bonito, diria até romântico, no sentido de ser nostálgico. Nele, não passam os filmes que, nos cinemas comercias, ocupam três salas ao mesmo tempo. É uma perda lastimável.

Projeção de cena do filme "Medos Privados em Lugares Públicos", mantido em cartaz desde 2007.
Fernando Meirelles comentou: “Infelizmente não há nada parecido com o Belas Artes na cidade. O pior de tudo foi saber que o cinema vai sair dali para dar lugar a mais uma lojinha. Caramba, São Paulo já tem tanta lojinha. Não entendo esta compulsão por compras. Acho que nasci na época errada.”
É triste, pois é mais patrimônio da cidade que é demolido pelo pragmatismo, pelo lucrativo, pelo rentável. Vale lembrar que diversos patrimônios têm perdido espaço. A antiga USP, uma casarão na Alameda Glete, foi demolida para se tornar um estacionamento. O Auditório Ibirapuera, há alguns meses, perdeu o patrocínio da Vivo. O MASP enfrenta uma dívida imensa após a privatização da Eletropaulo que, quando era estatal, mantinha um acordo de não cobrar a luz consumida pelo museu. Isso sem contar os espaços verdes que frequentemente perdem para especulação imobiliária.
São Paulo está cada vez mais se tornando um aglomerado de prédio residenciais de elite e prédios comerciais executivos. Em todo canto da cidade, há prédios em construção. A quantidade de carros que é despejada mensalmente é absurdamente alto. A qualidade de vida está despencando na cidade, e todos aqueles locais que mantém algum clima melhor, como o Belas Artes, acabem sendo trocados ou abandonados.
Um abaixo-assinado está rolando no endereço http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/assinar/7873 para deixar nossa insatisfação registrada. Um protesto vai acontecer no dia 15 de janeiro, às 20h, na frente do cinema.