Estavam numa floresta doze amigos. Foi-lhes proposto um desafio: disseram que havia um unicórnio na floresta, que não podia ser visto, ouvido, tocado, cheirado e nem deixava rastro. Venceria o desafio quem provasse que ele não existe. Aí começa:

João, o empirista, logo se pronuncia: “Se não podemos experimentar, se não podemos sentir que haja um unicórnio nesta floresta, é claro que ele não existe” e encontra apoio em Piro, o cético, que completa com “ver para crer”. Ambos deram-se por satisfeitos.
Renan, o racionalista, negou-os, argumentando que a experiência pode ser enganosa. “Por mais que pudéssemos sentir os unicórnios”, diz ele, “a sensação não descreve uma realidade. É impossível encontrar os pensamentos deles, o que por si só já definiria sua existência.”
Chico, o indutivo, solta uma gargalhada e, defendendo João, diz que nunca foram vistos animais unicórnios, o que já basta para dizer que eles inexistem. João e Piro concordam, mas Renan provoca: “Como você pode assumir como verdade que não há unicórnios?”
Emanuel, o iluminista, intervem para apaziguar a discussão: “Acalmem-se, o que vemos é influenciado pelo modo que queremos ver. Sabendo que há cavalos e que há animais com chifres, juntando os dois temos o unicórnio.” Todos fizeram cara de ponto de interrogação. “Logo, sua existência é um misto da nossa experiência com nossa razão.” Resultado: amarram-no numa árvore com um pano sobre a boca.
William, o pragmático, discute a utilidade de se provar a existência do unicórnio, falando que se não há um fim prático para isso, é perda de tempo. Renan sugere que o unicórnio seja perfeito, o que leva Ricardo, o probabilista, a opinar que ele muito provavelmente não exista, pois para isso haveria de existir um ser mais perfeito que o teria criado, e que aquele seria criado por um outro ser ainda mais perfeito e por aí vai…
Carlos, o evolucionista, diz que numa floresta como aquela, ter chifres não seria vantajoso, tampouco adaptativo, com isso, a natureza não o selecionaria, pelo contrário, se encarregaria de exterminá-lo. Chico insiste que nenhum animal com chifre é unicórnio. Aproveitando essa máxima, Evaristo, o lógico, diz que todos os unicórnios possuem chifres, o que o leva a concluir que alguns animais com chifres não possuem chifres.
George, o idealista, trata a realidade como um movimento constante, um espírito: “Se afirmamos a existência do unicórnio com base no que sabemos, estamos negando outras verdades, porque…”, “Cale-se!”, grita Fred, o niilista. “Não há verdades, o unicórnio é uma criação contextualizada dos valores humanos.”

Renan se impõem: “O unicórnio é perfeito, portanto sua existência é inerente!” Fred apanha uma espingarda e dispara aleatoriamente para o meio do mato, comemorando: “O unicórnio está morto! Eu o matei!” Renan irrita-se e pula com as duas mãos no pescoço do colega, levando os dois ao chão. Chico tenta separá-los.
Paulo, o existencialista, fala: “Se imaginamos que o unicórnio exista, estamos projetando uma essência anterior à sua própria existência, o que é incorreto. Primeiro ele existe, depois se define no mundo.” George reclama: “Só o racional é viável!” Paulo continua: “Quieto! Ainda que ele existisse, isso em nada afetaria o homem.” George provoca: “Vamos ver se não?” e ataca uma pedra na direção de Paulo, “segura esse unicórnio, quatro olhos!”
O grupo parte para a briga. Eram urros, gritos e ofensas. Camisas surradas, sapatos voando, cabelos despenteados. Quando, de repente, chega um outro elemento, que ninguém até então conhecia, e diz pacificamente: “Eu acredito na existência do unicórnio acima de qualquer coisa. Não preciso senti-lo materialmente nem obtê-lo por deduções, posso senti-lo dentro de mim, independente do que dizem ou provem. O unicórnio, enfim, existe.”
Moral da História: A ciência não será nunca capaz de provar a inexistência de Deus, não importa o método ou tecnologia que adote. Da mesma forma, nunca será provada sua existência e Deus permanecerá para sempre no terreno relativo das ideias. Podemos ser imagem e semelhança Dele, ou Ele da nossa.
O empírico, o racional ou a lógica não competem com doutrinas que encerram em si mesmas, tendo como conclusão as próprias premissas que as sustentam. Perto da fé, caro leitor, a ciência parece brinquedo de humanóides. O que não nos impede de dizer que Deus está morto, de acreditar no nosso livre-arbítrio, de negar um destino, de não engolir valores. Criemos o nosso unicórnio, pois, ainda que Ele exista, nada compensa a Nossa existência.