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Visitem o Cinema Grafado

Olá leitores despidos,

Como nos últimos tempos tenho me interessado bastante por cinema, e não estava inspirado a escrever sobre outras coisas, criei um novo blog, que por enquanto vou manter paralelamente ao Letras Despidas. Esse blog é o Cinema Grafado:

www.cinemagrafado.wordpress.com

Para vocês, leitores, que gostam de cinema, sejam cinéfilos ou simplesmente gostam de ler sobre. No blog terá, basicamente, críticas de filmes recentes e antigos. Atualmente, estamos contando os dias para o Oscar, que será dia 07 de março, então, por enquanto, os filmes concorrentes serão priorizados.

Visitem ou indiquem para quem gosta de cinema e, o mais importante, sempre que der, participem, pois os comentários serão bastante importantes!

Closer

“O amor é um acidente esperando para acontecer.”

Um dos meus filmes favoritos, Closer – Perto Demais (Closer, 2004), de Mike Nichols consegui ir a fundo, como sugere o título, nos relacionamentos entre as pessoas. O importante não é a história, que patina para não sair do lugar, e sim a maneira que as quatro personagens lidam com o amor, com o ciúme e a separação. Um filme sutil, que não recorre a cenas de sexo, ao mesmo tempo em que é agressivo.

Daniel (Jude Law) é um escritor de obituários aspirante a romancista, que conhece Alice (Natalie Portman) por acidente, numa linda cena de início embalada ao som de Can’t Take My Eyes Off You, na interpretação intimista de Damien Rice. Casados, Daniel conhece e inicia um romance com Anna (Julia Roberts), uma fotógrafa profissional recém-divorciada que prepara uma mostra com fotos de pessoas comuns. Também por uma peça que o destino lhe prega, Anna conhece Larry (Clive Owen), um médico com o qual passa a morar junto. A partir daí, é um nó de relacionamentos, onde declarações de amor se confundem com separações frias.

Alice na casa stripper com Larry

O filme se resume a diálogos bem encabeçados, que denotam grande sensibilidade do roteirista Patrick Marber, cuja peça inspirou o filme, e do diretor Mike Nichols. Os atores estão ótimos. Julia Roberts, que já mostrou seu poder de atuação em filmes como Erin Brockovich (2000), surpreende numa briga com Clive Owen, numa das mais fantásticas cenas que eu já vi. O estilo lembra bastante Arnaldo Jabor, que consegue misturar sentimento com um apelo sexual muito forte e explicíto (vide Eu Sei Que Vou Te Amar, 1986).

Anna iniciando um romance com Daniel

Em nenhum momento os quatro personagens interagem ao mesmo tempo. Embora reunidos em um mesmo local (a mostra de fotografias, que conta com o Samba da Benção, de Vinícius de Moraes e Baden Powell, como fundo musical), eles sempre dialogam dois a dois e, na maior parte das vezes, um homem e uma mulher. Este mesmo padrão, que dá uma ideia de isolamento, também aparece no francês Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, 2006), porém, em comparação a este, Closer é muito mais apimentado e interessante.

Natalie Portman está em uma atuação bastante ousada. Sua personagem segue o estilo de uma garota rebelde, que debocha da fotografia e trabalha como stripper. Sua identidade é posta em dúvida ao longo do filme, o que gera um efeito inesperado, inclusive para o personagem de Jude Law, com o qual mais se relaciona.

Alice na mostra de fotografias

Não há uma cena sobre a qual não dê para dizer algo interessante. Por exemplo, quando Alice pressente que Daniel (ou Dan, como é apelidado) vai abandoná-la. Ele a abraça e diz que está errada, e uma câmera muito perspicaz capta seu olhar de desconfiança pelo espelho. Há alguns momentos cômicos, como no momento em que Anna conhece Larry, que pensava que ela era uma garota de programa que seduzia e marcava encontros com homens pela Internet.

Em suma, é um filme muito bom e de uma sensibilidade tremenda. Retrata de uma forma criativa os altos e baixos dos relacionamentos humanos. Consegue ser um filme coerente mesmo se contradizendo o tempo todo. Excelente!

“Se você acredita em amor à primeira vista, você nunca para de olhar.”

Avatar

O maior mérito – e também a maior novidade – do longa-metragem Avatar (2009), de James Cameron, é a tecnologia 3D aprimorada. Diz-se até que se trata da terceira revolução do cinema, sendo a primeira a passagem do cinema mudo para o falado, e a segunda do branco-e-preto para o colorido. Alguns críticos até ousam dizer que, com o tempo, o padrão será produzir filmes em 3D, e que o 2D será apenas para efeito artístico, como é o caso dos filmes sem cor produzidos hoje, com alguma intenção do diretor.

Isso é assunto para outro texto, mas vamos ao filme. James Cameron já é um veterano em altas bilheterias, afinal, a maior bilheteria da história do cinema é Titanic (1997), com ele na direção e que lhe rendeu 11 estatuetas do Oscar, das 14 indicações. O segundo lugar, então, também é de Cameron, com Avatar, uma mega-produção caríssima (na casa dos 500 milhões de dólares), muito bem produzida, com uma fotografia impecável, efeitos surpreendentes, toda uma beleza fantasiosa e, de praxe, uma historinha bem meia-boca.

O mundo de Pandora

Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro que ficou paraplégico. Sem conhecer muito a respeito, aceita uma missão de, junto com outros soldados, ir para uma base científica no planeta Pandora, habitado por criaturas humanóides de pele azulada e feições felinas, os Na’vi, e “entrar” no corpo de um deles, por uma tecnologia bastante avançada, onde a mente do ex-fuzileiro é transportada para o corpo de um híbrido de Na’vi com humano, denominado Avatar. Assim, ele deve se infiltrar na tribo dos Na’vi, conhecê-los e ganhar sua confiança, para fornecer informações aos humanos, que pretendem extrair um valioso minério localizado sob o território que Os Outros habitam.

É claro que se ficasse nisso, seria apenas previsível. Mas para colocar um pouco mais de pimenta, e ficar ainda mais previsível, ele se apaixona pela selvagem Neytiri (Zoe Saldana), e acaba se aliando ao outro lado, voltando-se contra a missão inicial, que destruiria os Na’vi se fosse necessário, apenas para ter acesso ao minério.

Jake Sully no corpo de um Avatar

Numa fábula bem longa, de quase três horas, é bem distinguido o lado do bem (a sabedoria dos selvagens, a tradição dos habitantes da floresta, a natureza encantadora) e o lado do mal (a ganância humana, os lucros capitalistas), numa parábola comparável a, e me desculpem pela comparação, com Eliana em O Segredo dos Golfinhos (2005). Ou seja, em termos de história, não há nada de original, nada de brilhante; pelo contrário, são muitos clichês.

No entanto, eu recomendo o filme, porque é, apesar de tudo, bom e entretém. Afinal, é um filme de ação com cenas bem feitas, uma tensão em alguns momentos, algumas surpresas já meio que esperadas (mas não deixam de ser surpresas). Mais do que recomendar, vale a pena assisti-lo em 3D, porque é uma nova sensação. Quem assistiu a outros filmes em 3D, como UP – Altas Aventuras (2009), deve ter gostado. Mas este se trata de uma animação, enquanto Avatar é uma filmagem real, embora use e abuse de computadores. No fundo, vale a experiência.

Sherlock Holmes

O novo filme de Guy Ritchie, apesar de ser uma releitura interessante dos clássicos de Conan Doyle, peca pelos clichês e, podemos dizer, por uma “americanização” do jeito de se fazer filme. Seguindo a tendência dos enlatados que os EUA são pródigos em produzir, o que se vê são muitos efeitos, uma história fraca, atuações exageradas e muita, muita, apelação. Essa última palavra define o longa-metragem Sherlock Holmes (2009).

O filme força a barra descaradamente. Não só pelo raciocínio de Holmes, o que já era esperado, que de uma marca de um anel no dedo consegue concluir coisas mirabolantes sobre um suposto casamento fracassado. O que mais irrita, entretanto, é a pose das personagens. São caras e bocas demais, o que até é compatível com o tom cômico do filme, mas chega um ponto em que não mais convence.

Robert Downey Jr. interpreta o detetive Sherlock Holmes e Jude Law, o doutor Watson. A crítica já se encarregou de levantar diversos pontos acerca dos dois protagonistas, uma delas é que Watson não é só mais a força bruta, como também desafia Holmes em certos momentos. Esse aspecto é interessante. Não li nenhum livro de Conan Doyle para afirmar, mas parece que Watson ganhou mais importância. A arrogância de Holmes, no entanto, permanece.

O enredo do filme é bastante enfadonho, não parece tão bem coeso. Em compensação, Londres está bem caracterizada, e os efeitos especiais, ora, são os efeitos especiais do século XXI: encantadores, mas usualmente a serviço do vazio.

O que desqualifica o filme é, como disse, o excesso de fantasia. A ação exagerada demais (como nos enlatados, as maiores situações de perigo só causam pequenos arranhões no herói), e o humor, recheado de gracinhas, fica bem dentro daquele padrão já conhecido: uma palavrinha irônica, um olhar desconcertado, ou seja, nada de criativo.

Talvez o meu erro tenha sido ir ao cinema com alguma expectativa. Mas, é claro, com todos os raciocínios inteligentes que consagraram o clássico britânico, o que eu esperava era um filme, em muito mais aspectos, a essa altura.

Perfume

“Pois não”, foi o que a moça loira, de feições bonitas, me respondeu quando pedi licença para me sentar ao seu lado no 7903-10, ainda parado apontando para o Teatro Municipal. Devia ter uns quarenta anos; bonita, como disse, mas o que mais me chamou a atenção foi o seu perfume, suave, de alguma flor de lugar frio, possivelmente da Europa. Na minha mão, um livro de bolso do Camões.

“Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.”

O perfume da moça quase materializava o lirismo camoniano. Não sei se lia o livro ou o momento, não sei se eram meus olhos ou meu olfato que diziam algo.

Já em movimento, após um semáforo, ela se virou para o lado, como as pessoas comuns viram para o lado dentro de um ônibus. Reclinei-me sobre a sua nuca e como que sentindo as flores do seu perfume tateando minhas narinas, inspirei um ar profundo, daqueles que embaralham as letras de um soneto. Na cabeça, me veio um misto de aroma e poema.

Vez ou outra, mirava seu rosto. Não era feio, como disse, embora o tenha evitado. Negava a olhá-la com cuidado para que seu rosto não ofuscasse a imagem do seu cheiro. Preferi me focar no livro, neutro, de páginas brancas e letras pretas, aparentemente sem vida, e deixar que outra poesia me envolvesse. A poesia da moça, um belo soneto que mascarou a cidade.

Já estava chegando perto do meu ponto. Fechei o livro com as duas mãos e desci do ônibus. Pensei na moça por mais alguns instantes. De vez em quando, ainda hoje, abro o livro. Não para lê-lo: somente para sentir o seu perfume mais uma vez.

Novos ares?

Olá leitores despidos,

Um novo ano… e será que com ele virão novos ares para o Letras Despidas? Não sei. Após minha crise de inspiração que mencionei no post abaixo (que aliás, faz bastante tempo que foi publicado), me sinto com relativa vontade de escrever.

Me desculpe falar com esse desdém, é que estou realmente receoso quanto ao futuro deste blog. Pode ser que ele seja excluído, ou que se mantenha atualizado vagarosamente, ou, de repente, me bate aquela vontade.

A verdade é que não estou afim de escrever como escrevia antes, tentando um jeito jornalístico mais casual. Agora, acho que ficaria mais para o casual mesmo. Não sei se é o tédio das férias que me faz isso, mas digo: o Letras Despidas ainda está vivo.

Abraços,

Desculpem!

Leitores despidos,

Me desculpem pelo abandono. Isso chama-se abandono mesmo. Não tem palavra melhor que define esse descaso. O blogue (vou escrever “blogue” em vez de “blog”) era atualizado toda semana, costumamente mais de uma vez por semana, e de repente se vê a mais de um mês sem nada.

Motivo: não é falta de tempo. Tempo eu até tenho. O problema é uma crise de inspiração e talvez de vontade de escrever. Parece que não sinto mais essa necessidade. Antes, vira e mexe eu queria dizer algo. Agora sinto que estou só mudando, só aprendendo e não me sinto apto a escrever.

No entanto, também não tenho coragem de deletar o blogue. Vou mantê-lo, num esquema “morte cerebral”: na prática, está morto, mas o coração ainda bate. Até quando?

Não sei, talvez eu não queira mais escrever o mesmo que escrevia antes. Só que a proposta do blogue não pode mudar radicalmente. O Letras Despidas não pode deixar de ter o padrão que tinha para virar recanto de outros textos que em nada se relacionam com sua história. Isso mereceria um novo blogue. Só que não quero apagar os três anos de vida deste.

Vou mantê-lo, na esperança de que minha vontade de escrever volte. Infelizmente, o Letras Despidas não é mais o mesmo. Piorou…

Inspirado no livro “Como um Romance”, de Daniel Pennac.

Ninguém tem tempo para ler. A vida parece um entrave à leitura. Eu não tenho tempo para ler, você não deve ter, ninguém tem. Não existe um tempo para isso.

Porque o tempo para ler é sempre um tempo roubado, assim como o tempo para escrever, ou para amar (ninguém diz “vou amar hoje das cinco às seis”). Roubado do quê?

Roubado da obrigação de viver. Mas se ler é um gosto pessoal, fazer o que gosta também é uma obrigação. Posso ter milhares de tarefas, mas meu chefe não vai me impedir de terminar um romance.

A leitura, assim como o amor, não depende da organização da rotina, ela é uma maneira de ser. Não é um tempo que lhe é dado, mas é você que se entrega ou não a ele. É você que se oferece às felicidades da leitura.

As pessoas vivem dizendo que não tempo para as coisas, por isso nunca tentam. Quando se colocam mais coisas na rotina, ela se rearranja. Roube tempo para o que te satisfaz. Não espere o tempo vir, porque ele nunca virá.

Eu carrego o tempo para ler comigo. Ele está no meu bolso, na minha mochila, ou em cima da escrivaninha. No meio da aula, no caminho para casa ou deitado na cama, eu me usurpo ao me dedicar à leitura. Ler é uma transgressão.

Talvez por isso ninguém tenha tempo para ler.

Machismo sexual

Vivemos numa época em que valores tradicionais, como a castidade, estão em baixa. Hoje, a juventude vai às baladas e usufruem prazeres que, há algumas décadas, eram recheados de pudor. Em meio a essa liberação sexual tanto entre homens quanto mulheres, que ocorreu principalmente nas sociedades ocidentais, vale a pena nos perguntar se realmente nos libertamos do tradicionalismo até então vigente.

Analisando especificamente o caso da igualdade de sexos, a resposta é não. Falar de mudanças na sociedade é falar num tom político. E, óbvio, é de certo modo um ato político dois homens andarem de mãos dadas na rua, mais até do que uma demonstração de afeto. Porém, a liberação sexual, entendida hoje como ficadas sem compromisso, se banalizou, tornando-se modismo de juventudes que, alienadas, buscam apenas um prazer pessoal.

Viva a liberação sexual!

Viva a liberação sexual!

Não há política nas micaretas. O garoto de classe média vai com a intenção de “pegar” várias meninas, apoiando-se em conquistas liberais anteriores, sem ter a menor consciência disso. A própria visão de “pegar” mulheres, somada à objetificação do sexo, são visões conservadoras e machistas.

Não quero dizer que o homem se aproveita da mulher nas baladas, até porque é recíproco. Individualmente, tanto a mulher quanto o homem se beneficiam dessa liberdade. Coletivamente, a mulher sai prejudicada. São elas que majoritariamente são consumidas pela indústria da beleza e do sexo.

Os homens as consomem, eles compram a beleza. É claro que também são alvos desse ideal, mas um homem “sarado” tem um significado por si só. Ele existe como um macho dominante, no caso, “pegador”. Enquanto que as mulheres “gostosas” existem em relação a ele, são objetos para ele, e o seu prazer é apenas um anexo de um prazer maior voltado para a satisfação masculina.

Reafirma-se o que bem escreveu a escritora feminista Simone de Beauvoir: “O homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. Ela não é senão o que o homem decide que seja.”

Liberação sexual: sempre política?

Liberação sexual: sempre política?

Uma mulher que sai na Playboy pode até se achar feminista, porque os homens a idolatram tal qual um romântico idealiza a mulher amada. Ela, a modelo, se põe num patamar superior, parece ser dominante, exibe caras e bocas provocantes, procura poses inéditas que tentam subjugar o homem. Mas não percebem que, sendo reféns da beleza, caem na ilusão de que conquistam seus direitos não abrindo a cabeça, e sim as pernas.

Assim, embora a sociedade tenha visto avanços nos direitos femininos, que reduziram o machismo profissional, intelectual e político, ainda é fortalecido uma outra forma de machismo: o machismo sexual.

Enquanto se “pornifica” tudo, até propaganda de cerveja, as gerações vão sendo educadas de modo que ser homem vira sinônimo de ver sexo onde não tem. O sexo está em tudo, na mesma proporção em que não está em nada. Comprar um carro não é sexo, passar creme antiacne ou fazer a barba também não, mas estão associados pela publicidade.

As gerações sexualmente liberais acreditam estar exercendo uma liberdade social e política, quando na verdade tornam-se mantenedoras de tradicionalismos que apenas se reformulam para continuarem existindo.

Estavam numa floresta doze amigos. Foi-lhes proposto um desafio: disseram que havia um unicórnio na floresta, que não podia ser visto, ouvido, tocado, cheirado e nem deixava rastro. Venceria o desafio quem provasse que ele não existe. Aí começa:

Unicórnio

João, o empirista, logo se pronuncia: “Se não podemos experimentar, se não podemos sentir que haja um unicórnio nesta floresta, é claro que ele não existe” e encontra apoio em Piro, o cético, que completa com “ver para crer”. Ambos deram-se por satisfeitos.

Renan, o racionalista, negou-os, argumentando que a experiência pode ser enganosa. “Por mais que pudéssemos sentir os unicórnios”, diz ele, “a sensação não descreve uma realidade. É impossível encontrar os pensamentos deles, o que por si só já definiria sua existência.”

Chico, o indutivo, solta uma gargalhada e, defendendo João, diz que nunca foram vistos animais unicórnios, o que já basta para dizer que eles inexistem. João e Piro concordam, mas Renan provoca: “Como você pode assumir como verdade que não há unicórnios?”

Emanuel, o iluminista, intervem para apaziguar a discussão: “Acalmem-se, o que vemos é influenciado pelo modo que queremos ver. Sabendo que há cavalos e que há animais com chifres, juntando os dois temos o unicórnio.” Todos fizeram cara de ponto de interrogação. “Logo, sua existência é um misto da nossa experiência com nossa razão.” Resultado: amarram-no numa árvore com um pano sobre a boca.

William, o pragmático, discute a utilidade de se provar a existência do unicórnio, falando que se não há um fim prático para isso, é perda de tempo. Renan sugere que o unicórnio seja perfeito, o que leva Ricardo, o probabilista, a opinar que ele muito provavelmente não exista, pois para isso haveria de existir um ser mais perfeito que o teria criado, e que aquele seria criado por um outro ser ainda mais perfeito e por aí vai…

Carlos, o evolucionista, diz que numa floresta como aquela, ter chifres não seria vantajoso, tampouco adaptativo, com isso, a natureza não o selecionaria, pelo contrário, se encarregaria de exterminá-lo. Chico insiste que nenhum animal com chifre é unicórnio. Aproveitando essa máxima, Evaristo, o lógico, diz que todos os unicórnios possuem chifres, o que o leva a concluir que alguns animais com chifres não possuem chifres.

George, o idealista, trata a realidade como um movimento constante, um espírito: “Se afirmamos a existência do unicórnio com base no que sabemos, estamos negando outras verdades, porque…”, “Cale-se!”, grita Fred, o niilista. “Não há verdades, o unicórnio é uma criação contextualizada dos valores humanos.”

Floresta

Renan se impõem: “O unicórnio é perfeito, portanto sua existência é inerente!” Fred apanha uma espingarda e dispara aleatoriamente para o meio do mato, comemorando: “O unicórnio está morto! Eu o matei!” Renan irrita-se e pula com as duas mãos no pescoço do colega, levando os dois ao chão. Chico tenta separá-los.

Paulo, o existencialista, fala: “Se imaginamos que o unicórnio exista, estamos projetando uma essência anterior à sua própria existência, o que é incorreto. Primeiro ele existe, depois se define no mundo.” George reclama: “Só o racional é viável!” Paulo continua: “Quieto! Ainda que ele existisse, isso em nada afetaria o homem.” George provoca: “Vamos ver se não?” e ataca uma pedra na direção de Paulo, “segura esse unicórnio, quatro olhos!”

O grupo parte para a briga. Eram urros, gritos e ofensas. Camisas surradas, sapatos voando, cabelos despenteados. Quando, de repente, chega um outro elemento, que ninguém até então conhecia, e diz pacificamente: “Eu acredito na existência do unicórnio acima de qualquer coisa. Não preciso senti-lo materialmente nem obtê-lo por deduções, posso senti-lo dentro de mim, independente do que dizem ou provem. O unicórnio, enfim, existe.”

Moral da História: A ciência não será nunca capaz de provar a inexistência de Deus, não importa o método ou tecnologia que adote. Da mesma forma, nunca será provada sua existência e Deus permanecerá para sempre no terreno relativo das ideias. Podemos ser imagem e semelhança Dele, ou Ele da nossa.

O empírico, o racional ou a lógica não competem com doutrinas que encerram em si mesmas, tendo como conclusão as próprias premissas que as sustentam. Perto da fé, caro leitor, a ciência parece brinquedo de humanóides. O que não nos impede de dizer que Deus está morto, de acreditar no nosso livre-arbítrio, de negar um destino, de não engolir valores. Criemos o nosso unicórnio, pois, ainda que Ele exista, nada compensa a Nossa existência.

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