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Hoje eu ia à exposição da Bossa Nova, na OCA do Ibirapuera, com duas amigas; chegamos no ponto e esperamos o ônibus, esperamos, esperamos, esperamos, e então decidimos ir pro Conjunto Nacional na Paulista, que ia ser mais rápido, e com muito mais opção de ônibus. Entramos e demoramos só no trânsito. Isso me lembra esse texto que li no Estadão, com a música maravilhosa “Chega de Saudade”:
Nossa! Já são oito da manhã! Perdi a hora…Vai Marco, mexa-se! Tem reunião às nove. Um banho rápido, café, um terno e rua. Pra minha tristeza, o trânsito está ruim, como sempre. O que fazer?
Liga pra Dani e diz a ela que vai atrasar. Boa idéia! Quase esqueço o celular. E a gravata, sem ela não pode ser. Alô? Caixa postal! “Dani, liga para a Ana e diz-lhe que estou a caminho.” E numa prece, quem sabe eu chego. Espero que ela regresse com os relatórios, porque eu não posso mais sofrer com essa pressão de atrasos.
No rádio está tocando Chega de Saudade. Legal, a bossa nova completa cinquenta anos. Mas a realidade é que o trânsito está horrível. Deve ser essa rotatória nova, mas sem ela não há paz nesse cruzamento. E não há beleza nessa rua. Cortaram as árvores, esse caminho agora é só tristeza e a melancolia reina.
E agora esse caminhão que não sai de trás de mim…Não pára de buzinar. Sai de mim, ô meu! E o cara não sai…
Nossa! Já são nove e dez! Acho melhor ligar e avisar que eu vou atrasar. Mas se ela voltar sem os documentos? E se ela não voltar? E eu dependo desse contrato.
E a Carol, hein? Que coisa linda. Nem acredito que estamos namorando. Que coisa louca ontem à noite…Vou chamá-la para almoçar. Ela trabalha logo ali no Largo do Batata. O trânsito deve melhorar, pois há um novo acesso na Marginal.
Puxa, dez horas, perdi a reunião. Quase duas horas andei menos de um quilômetro. Se ao menos tivesse peixinhos a nadar no Rio Pinheiros…E esse mar de carros. Nada do que eu queria.
Alô Carol? Vamos almoçar? Claro, pode esperar os beijinhos que eu darei na sua boca. Imagina ela dentro do meu carro, dos meus braços? Os abraços hão de ser inesquecíveis. Milhões de abraços. Mal posso esperar.
Já são onze e meia. Meu horário ficou apertado. Assim é melhor esquecer a reunião. Vou direto para o restaurante que é colado no escritório. Assim ganho tempo e não fico calado. E assim chego na hora.
Tudo parado e já são uma e meia. Nada de abraços e beijinhos e carinhos durante o almoço. Sem chance. Isso parece não ter fim. Melhor colocar a gravata, vou chegar em cima da hora pra reunião das três…
Alô? Carol? Vamos ter que desmarcar o almoço. Já são quase quatro, vou passar na firma. Que tal um happy hour? Te pego aí no teu trabalho.
Alô? Oi Dani, tudo bem? Já estou a caminho, mas cancela a reunião das dezessete. Tenho que mandar um e-mail que é pra acabar com esse negócio de atraso dos funcionários.
Nossa, vai dar cinco e meia. Alô? Carol? Melhor a gente jantar, já que você não consegue viver sem mim, né? Até daqui a pouco.
Anoiteceu. E meu carro parou. O QUE FOI AGORA?
Acabou a gasolina. Vou ter que empurrar pro acostamento. Alô? Carol? Tudo bem? Nosso jantar não vai rolar. Meu carro…Vou ligar pro guincho, amanhã eles tiram…
Escuta, quer casar comigo? Aceita? Que legal! Vamos mudar daqui? Não quero mais este negócio de você longe de mim. Amanhã a gente fala melhor. Vou ter que voltar pra casa a pé.
Beijos. Também te amo. Tchau.
Texto feito por: Marco Barcellos. Tirado do Estadão.
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O diapasão é uma ferramenta usada essencialmente por músicos para afinar seus instrumentos. Possui uma forma semelhante a um Y e, quando estimulado corretamente, emite uma nota, comumente um Lá na freqüência de 440 Hertz (Hz). Pelo fenômeno da ressonância, objetos vibrantes fazem outros vibrarem também se suas freqüências intrínsecas forem alcançadas. Dentro de nós existe um diapasão mental, que vibra quando bem estimulado.

Livros clássicos, aqueles tidos como obrigatórios, às vezes são apresentados como os estimuladores de diapasões, talvez porque na época em que foram lançadas fizeram vibrar muitos diapasões, mas hoje em dia sirvam mais como referência de literatura pretérita de qualidade. Ou não. Os clássicos devem mesmo nos agradar?
A mentalidade geral muda. Nosso diapasão é construído conforme o meio em que vivemos, contatos que temos, conhecimentos que adquirimos. Quando lemos um clássico, nosso diapasão pode não se estimular como outrora. Textos revolucionários de ontem viraram panfletos publicitários. Estilos de escrita inovadores caíram em manuais de redação. Obras artísticas impecáveis dividem espaço com outras tantas em museus.
Ao mesmo tempo em que se retira o ar de novidade, a crista da onda que estimularia diapasões, nivela-se por cima o que sabemos. Deixa de ser algo inusitado e vira um conhecimento basal. Eleva nosso patamar.
Tudo deve ser visto sob pelo menos dois contextos: o contexto temporal, da época em que o clássico foi concebido, e o contexto atemporal, que se generaliza aos princípios básicos que guiam cada um de nós. E esta dupla visão não se aplica só a clássicos, mas a qualquer acontecimento, histórico ou não. Exemplo:
Os argumentos de Hitler eram baseados no contexto temporal da humilhação alemã pelo Tratado de Versalhes no período entre guerras, no entanto, sob o prisma do contexto atemporal, é impossível apoiar tais atrocidades uma vez que se é contra homicídios e, sobretudo, genocídios.
Às vezes deve-se pesar qual dos dois contextos vibra mais o diapasão mental, quando não são os dois, ou nenhum. Isto não desculpa aqueles que não gostam de nada, porque a negação de conhecimentos não significa necessariamente uma visão crítica, e sim uma ausência de bagagem para permitir a vibração.
Logo, quanto mais sabemos, mais podemos vibrar nosso diapasão. Mais também podemos torná-lo um instrumento preciso, que analisa com rigor as informações que nos chegam. Assim, clássicos podem não representar o tipo de vibração que gostamos, mas fornecem (como todo subsídio cultural) parâmetros para julgar novas ondas vibrantes.
Deriva-se daí a necessidade de se manter aberto a novas vibrações, de qualquer tipo, de qualquer lado, pelo menos para saber o que não se gosta e, portanto, delinear melhor o que se gosta, abrindo a possibilidade de criar suas próprias vibrações e vibrar novos diapasões mentais.
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A Dança da Vida, que Munch pintou em 1990, é situada numa noite iluminada de verão junto com a praia de Aasgaardstrand em Oslo Fjord. Iluminada pela lua cheia, casais se engajam numa dança energética. O reflexo “fálico” da luz da lua na água dá a cena um ar sensual. No centro da pintura, um homem com um terno escuro e uma mulher num vestido vermelho estão mergulhados um no outro. Os dois estão na aurora das suas vidas. O vestido da mulher se enrola nas pernas dele, alguns dos fios do seu cabelo vai à direção dele. Seus olhos estão fechados; os dois parecem estar totalmente absorvidos e desatentos aos outros. No lado esquerdo está uma jovem garota num vestido branco e um sorriso na sua cara entra na cena. Sua mão se aproxima de uma flor na sua frente. No lado oposto, uma mulher idosa está de pé em um vestido preto. Ela observa a dança do casal do centro com uma expressão amarga, suas mãos estão dobradas como se estivesse retirada/deixada.
Além do uso da cor, Munch aprofunda a diferença das três mulheres com um uso diferente de linha que as contorna. A garota adolescente no lado esquerdo está coberta com pinceladas sensíveis e vibrantes. Uma linha “empacotada, digestiva” enrola a mulher central “com seu apetite evidente pra vida” (Edvard Munch). Contrastando isso, a mulher da direita, que aparenta ter se retirado da dança da vida, é delineada com linhas rígidas e angulares.
A Dança da Vida pertence a uma série chamada o Friso da Vida. Esse friso foi feito com a intenção de ser uma série de pinturas adjacentes e livres, que dariam uma visão clara da vida e da situação do homem moderno. Munch escreveu: “Através deles os ventos curvando a costa marítima, e além do mar, ainda em baixo das árvores, vida, com toda sua complexidade da dor e alegria, continua”. Os três maiores temas do Friso da Vida, amor, ansiedade e morte, estão claramente expressados na Dança da Vida. Logo, essa pintura pode ser vista como a peça central na série.
Esse quadro pode ser interpretado de vários pontos de vista e vários níveis. A transição das mulheres da adolescência, maturidade sexual, e velhice nos levam a crer que a pintura lida com o eterno ciclo da vida. Nessa “noite de verão iluminada”, Munch escreve, “vida e morte, dia e noite vão de mãos dadas”. Certamente, morte é o nascimento da vida, e Much percebe isso.
Dança da Vida é também sobre a própria mulher, ou o “mistério feminino”, como diria o Munch. Também pode ser vista como o “ciclo do amor”. Munch achava que o amor começava com os flertes, de uma maneira puros, inocentes e belos, depois para o amor físico e carnal, mais maduro, que é representado pelo casal do meio, e por fim os “ciúmes e rejeição” (palavras do Munch). Assim o quadro também representa o amor, a moça do lado esquerdo representando o começo do relacionamento, o casal do meio o amor físico, e do lado direito à rejeição ou simplesmente o fim do relacionamento. Munch foi rejeitado pelo seu primeiro amor, e rejeitou no seu segundo relacionamento.
Dessa maneira, o quadro ainda tem outro nível. O homem do meio, de preto, é o próprio Munch, dançando com seu amor antigo, a mulher da esquerda é a Tulla Larsen, que está esperando pelo seu amor, e do lado direito ela sendo rejeitada. A descrição do Munch suporta essa interpretação:
“Eu estou dançando com meu amor verdadeiro - uma memória dela. Uma mulher loira sorridente entra e deseja tomar sua flor do amor - mas não irá deixar ser tomada. E do outro lado pode ser visto ela vestida de preto, perturbada pelo casal dançando - rejeitada - como eu fui rejeitado da dança dela [da mulher de vestido vermelho]“
Como o Munch foi rejeitado pelo seu primeiro amor, Tulla Larsen é agora rejeitada pelo Munch. Os dois, pintados de preto e virados um ao outro, se encontram como parceiros no sofrimento.
Outras pinturas com o mesmo tema, da mesma série:
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No dia 20 de Junho de 2008 entrou em vigor a lei 11.705 que altera o Código de Trânsito Brasileiro baixando para índices ínfimos a concentração máxima permitida de álcool no sangue de condutores de veículos. Antes, era permitido até 0,6 decigramas de álcool por litro de sangue (o equivalente a dois copos de cerveja). Agora, basta 0,2 dg para o condutor estar sujeito a penalizações.
Por que ser contra a Lei Seca
Sabe-se que acidentes de trânsito são comuns em metrópoles, sendo parte considerável deles causado por embriaguez. Então, motoristas embriagados são um problema existente (e recorrente) e que deve ser solucionado para a segurança de todos. O foco do problema está em dois pontos principais: o condutor não beber acima do nível permitido de álcool e a fiscalização apanhar aqueles que ultrapassarem os limites.
A Lei Seca atinge o primeiro caso. Porém, é ilegítima uma ação tão rigorosa (como acontece em países escandinavos, por exemplo) por retirar a liberdade de todos devido às transgressões de alguns irresponsáveis. Não é questão de cada um saber o seu limite, porque isso é subjetivo, tampouco dá para cortar o consumo de bebidas, porque aqueles conscientes são prejudicados, e é fácil criar uma lei que faz a população pagar o pato assim.
Quem falha é a fiscalização. Leis mais rigorosas são inúteis se não há um poder de fiscalizar as leis já vigentes. O limite anterior (de 0,6 dg) não era incorreto, mas havia mortes atrás de mortes por não haver um corpo fiscal capaz de repreender motoristas embriagados e fazer valer a lei. Agora, em vez de impedir a impunidade, colocou-se a responsabilidade só na mão da população, que teme as punições severas por meio copo de cerveja.
Somado ao fato de não haver transporte público nas madrugadas e os táxis cobrando preços altos, qual opção existe para o cidadão? Ou ele aceita pagar um táxi, ou faz revezamento com os amigos. Quer dizer, o problema mesmo de beber acima do limite foi ignorado. O ideal seria permitir uma concentração maior de álcool no sangue de modo a manter a sobriedade, e punir aqueles que fogem à regra.
Os dados que indicam que caiu pela metade o número de acidentes não dizem nada, porque no máximo as pessoas deixaram de beber, e é isto que se espera? Pode até ser que a lei acabe mesmo com os acidentes, mas não pela via sensata, e sim pela via proibitiva. É tal qual incentivar a abstinência sexual como maneira de acabar com a gravidez precoce. Será mesmo esse o caminho? Está se tirando o direito daqueles que fazem corretamente porque não se sabe lidar com os que fazem errado.
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a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)José Paulo Paes
Esse poema do José Paulo Paes demonstra muito bem o problema do conformismo. O que é pior que a torneira seca, a luz apagada, ou a porta fechada, é a nossa falta de vontade de beber a água, acender a luz e abrir a porta. Nota-se que todas as três coisas são bastante poéticas e filosóficas. Sede pode ser vista como a sede pelo conhecimento, beber a sabedoria, beber a realidade, beber a “verdade”. A luz apagada: a falta de visão, os que vêem mas se recusam, os que não querem ver, aqueles que gostam de estar alienados, não querem saber do que se passa, não querem ver o mundo de verdade. A porta fechada: se a verdade está “lá fora”, isso é, não no nosso mundinho, a falta de vontade de abrir a porta é extremamente importante, queremos estar dentro do nosso quarto, da nossa sala, do nosso interior confortável; “pra que?” as pessoas perguntam, pra que tentar ver outra realidade?
As pessoas se conformam e se acomodam muito rapidamente. Por comodismo pessoas curiosas não começam o hábito de ler mais, por conformismo pessoas inteligentes não tentam mudar algo, por causa do hábito -de não fazer nada, também- nada é feito. Sêneca escreveu que não há nada pior que perder o tempo por negligência, mas é isso que a maioria da humanidade faz. Temos nossa rotina e não queremos muda-la por uma causa que muitas vezes é considerada perdida. “O Brasil? Nossa, esse país não tem jeito”, mas quem são piores são os que falam isso.
Liga-se a T.V, assiste-se uma novela, compra-se um carro, joga-se uma bola, ô vida boa. Dê uma cerveja e uma bola pra um brasileiro comum e ele está feliz, adicione uma gostosona com nada na cabeça então…Bem, pode ser dito que aprenderam na Bíblia a imaginar o céu com onze virgens. Eu nunca gostei desse céu, e é claro “no céu, todas as pessoas interessantes estão faltando” (Nietzsche)
E eu? Que ainda vejo, que sou consciente. Eu, que tenho lido e pensado tanto sobre ser uma “pensadora livre”, que tenho “apertado o peito hipotético mais humanidades do que Cristo” (Fernando Pessoa), que fico arrepiada ao ver criança na rua, que quase tenho um surto quando ouço falar que moradores de rua são todos vagabundos, que me sinto triste ao ver insultos aos moradores de favela. Eu também não faço nada. Nada.
Mas penso em fazer, penso! Será que vale algo? Cada um tenta mudar o mundo da maneira que pode. Será que é ridículo tentar fazer algum impacto com filme? Com arte? Com filosofias?
Mas não, eu tenho sede, não gosto do escuro, e se não tenho a chave eu dou um chute e a arrebento a porta! Sou muito mais conformada do que gostaria, na verdade sou uma inconformada que não sabe para onde ir. Tenho uma indignação angustiada, talvez por isso queira fazer filmes, para mostrar logo toda injustiça que vejo, sem papas na língua.
Ai, hoje eu saio, hoje eu me levanto da cadeira, ponho a boca no trombone, hoje, no mínimo, eu acordo alguém. Com foto, texto, filme, qualquer coisa que tiver em mãos. Hoje, com essas mesmas mãos, eu bato palmas para todos que me acordaram, eu sacudo uma menina lendo “Atrevida”; ainda vou dizer, pras granfinas nos shoppings, ”a vida num é só maquiage muié!”.
Pois a chave está do lado de dentro, só falta a vontade.
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“Linhas tortas na palma da mão,
Dão trilha certa no fim,
Torto, o meu samba se escreve assim.”
Estes três versos iniciam o álbum que comemora 40 anos de samba de Eduardo Gudin, intitulado “Um jeito de fazer samba”. O violonista (cantor, compositor e arranjador) apesar de já estar muitas anos na estrada, não possui sólido reconhecimento pelo grande público. Quem o conhece, sabe de sua qualidade como músico, mas poucos o conhecem, exceto os outros grandes músicos com os quais ele trabalhou: Paulinho da Viola, Paulo Cesar Pinheiro, Mônica Salmaso, Francis Hime, sua ex-esposa Vânia Bastos dentre outros.

Gudin expressa uma certa felicidade mesclada à melancolia, porque suas canções são acompanhadas de uma tristeza, um amor distante, um clima sério, não deixando de ser poético. A levada bossa nova de seu violão lembra um pouco o ritmo carioca, porém, o conjunto não engana, e o músico sempre resgata sua tradição de samba paulista – sobretudo paulistano. A bela canção “Sempre se pode sonhar”, em parceira com Paulinho da Viola, inicia com “Saí, antes do dia amanhecer, deixei Adoniran me consolar”, faz referência a Adoniran Barbosa.
Entre suas mais famosas canções, está “Paulista”, um retrato da Avenida Paulista no centro de São Paulo, como em “Se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões” e, com uma leveza poética que poucos compositores conseguem: “Você sabe quantas noites eu te procurei nessas ruas onde andei? Conta onde passeia esse seu olhar, quantas fronteiras ele já cruzou no mundo inteiro de uma só cidade.” Cariocas e baianos, me desculpem, mas nós também sabemos fazer música (rs).

Outra canção mais popular é “Mordaça”, que foi composta na época do regime militar em protesto à repressão: “E a felicidade amordace essa dor secular, pois tudo no fundo é tão singular, é resistir ao inexorável, o coração fica insuportável e pode em vida imortalizar”, com o seu refrão bem sugestivo: “Mas só se a vida fluir sem se opor, mas só se o tempo seguir sem se impor, mas só se for seja lá como for, o importante é que a nossa emoção sobreviva.”
Um ponto comum das músicas do Gudin é a base do seu violão, que serve como um acompanhamento, junto com uma percussão consistente e vozes essencialmente, em coros afinados que parecem deslizar sobre a melodia. Ele como cantor não se destaca, por não ter aquela potência vocal. No geral, começa uma música e depois passa a bola para as cantoras, que continuam em conjunto com a voz dele, como se fossem dois planos diferentes.
Não consegui encontrar um vídeo muito bom dele, mas postei o seguinte, que é uma valsa só com cordas chamada “Etérea”, na voz de Vânia Bastos. Espero que tenham gostado dos versos ricos em poesia do Gudin. Nada melhor do um samba suave, rítmico, com boas letras e boas interpretações.
“Meu samba fala em adeus, sim
Mas também pode ocultar
Um sonho que se perdeu e sempre se pode sonhar
Guarda uma estrela que um dia pousou em minha vida
E já não brilha mais em minhas mãos vazias.”
(Sempre se pode sonhar – Eduardo Gudin/Paulinho da Viola)
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Sem demagogias, sem superfaturamento, o Letras Despidas completa, nesta terça (dia 08), dois anos de existência. Nos primeiros seis meses ficamos hospedados no Terra, depois passamos para o WordPress onde estamos satisfeitos até hoje.
Recentemente mudamos o visual do blog para este que tem menos aspecto de jornalismo e mais de informalidade, é mais despido. Além do mais, contamos com uma imagem editada pelo amigo Ítalo de Paulo, nosso colaborador e autor do blog parceiro Críticas & Reflexões.
Para mudar mais um pouco o visual do blog, eu e a Bia estamos preparando umas fotos que mais ou menos expressam a idéia central do blog para alternar de tempos em tempos. Também vamos dar uma nova cara para a seção “Quem somos nós”, recriando um blog mais personalizado e temático.
Agradecemos a visita de todos, as participações nos comentário e àqueles que nos citam em outros blogs e sites. Vamos continuar com nosso trabalho (leia-se hobby), e contamos com todos. Bem-vindo leitores despidos!
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Existe um tipo de preconceito que eu acho quase impossível alguém dizer que não tem (embora eu conheça gente que realmente não tenha). Ele é o preconceito musical. Dos rockeiros contra pagodeiros e vice-versa. No meio de todos esses grupinhos, ou como costumava chama-los antigamente, “tribos urbanas”, estão os “ecléticos” (os que gostam de tudo que toca no rádio, não que gostam de coisas variadas), que tem na sua maioria preconceito contra ópera, folk, e outros tipo de músicas menos populares.
Acho que a maioria das pessoas já ouviram alguém falar mal do tipo de música que elas gostam, ou de uma banda, ou já falou mal. “Arrggg, funk!?!!” essa sou eu. “Vai dormir com essa música?!” esses são os outros comigo.
Ninguém é obrigado a gostar de todos os tipos de música, e querendo ou não, nós não gostamos de algumas coisas. Mas eu percebo que há algo mais, que por trás do “não-gostar” existe preconceito de verdade, insultos que não são necessários, e rótulos infantis.
Esses dias minha amiga estava ouvindo umas músicas de forró e disse “ai gente, eu sei que é brega, mas eu gosto”, eu perguntei “e o que é brega?”, ela me respondeu “coisa muito melódica”, e eu disse “se fosse com guitarra as pessoas não diriam isso”. E eu acho que é verdade. Essa da música ser boa ou ruim por causa da letra é extremamente subjetiva. Existem músicas com letras totalmente ridículas na bossa nova, como no rock, no funk, e no forró. Funk é um assunto diferente, pois as letras são mais degradantes que a maioria, mas uma música tão degradante o quanto com guitarra não ficaria tão ruim para muitos fãs de rock.
Eu concordo que há certos tipos de músicas que são tecnicamente melhores, que são muito mais complexas e muito mais bem feitas. Não há como comparar a partitura de uma música do Bach com a partitura do 50 cent. Mas a música tem o papel de entreter. Se você gosta de ouvi-la, já não é bom o bastante?! Se ela é erudita, ou brega, não vai mudar o que você sente quando a ouve.
Na minha opinião o que muda é se ela é arte ou não.
Aqui vai um pouco do que eu gosto de ouvir:
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Arthur Schopenhauer nasceu em Danzig (Polônia) em 1788, estudou filosofia em Berlim e em 1819 publicou sua principal obra: O Mundo como Vontade e Representação.
Richard Dawkins nasceu em Nairóbi (Quênia) em 1941, educou-se como biólogo na Inglaterra e lecionou zoologia nos EUA, publicando sua obra mais importante, O Gene Egoísta, em 1976.
Mesmo após mais de cento e cinqüenta anos de diferença entre a publicação das duas obras, elas ainda compartilham muitas semelhanças em sua filosofia e, o mais interessante, sob uma abordagem bastante diferente, modificada principalmente pela importância da idéia de evolução que emergiu com Charles Darwin em 1859, período intermediário entre Schopenhauer e Dawkins.
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Schopenhauer, tido como pessimista, diz, em certo capítulo, que somos compostos de vontade (os nossos instintos, comum do nosso ser) e conhecimento (a individualidade de cada um). A primeira invariavelmente teme a morte, é objetiva, presente em todos; em contrapartida, a segunda é subjetiva, efêmera, nasce e morre conosco, e varia de um para outro. Sendo a nossa vida curta, o que realmente importa não somos cada um de nós, cada indivíduo, mas o conjunto, a espécie, esta sim duradoura.

Dawkins, assumidamente darwinista, defende que somos meros produtos de moléculas longínquas as quais ele chama de replicadores, pela capacidade de produzirem cópias de si mesma. Estes replicadores teriam evoluído por centenas de milhões de anos criando mecanismos, tornando-se mais eficientes e competitivos. Hoje, eles são conhecidos por genes e nós somos a sua máquina de sobrevivência, tanto nosso corpo quanto nossa mente, vivemos como que para protege-los.
Para ambos, existe a idéia de uma essência, presente na conservação da espécie (Schopenhauer) ou na preservação dos genes (Dawkins). No fundo, o sentido das duas teses é idêntico: um organismo vivo (genes intactos) possui o instinto de sobrevivência (vontade), de modo a se manter vivo e se reproduzir, passando os genes adiante e dando continuidade à espécie. Nos dois também se vê que a individualidade é ignorada, ou por ser um conhecimento efêmero, ou por ser uma carapaça descartável. Permanece a essência.
Um ponto no qual o filósofo se equivoca é chamar a nossa essência de indestrutível. Sendo a espécie a nossa essência, as extinções e especiações foram fenômenos recorrentes no processo evolutivo. Todavia, passando o conceito de essência mais precisamente para os genes, Dawkins poderia manter válida a noção de indestrutibilidade, porque por mais que sumam ou apareçam espécies, há uma ligação entre todas que remonta ao passado evolutivo, devido aos genes, condições essenciais para a vida. Neste sentido, a vida seria sempre indestrutível.
Entretanto, todos estes conceitos só poderiam ser definidos na era pós-Darwin, o que justifica a falta de articulação de Schopenhauer quanto à evolução. Agora, Dawkins pode dar uma roupagem mais atual, contribuindo para a tese da essência imortal (genes em si) em detrimento da individualidade efêmera (combinação de genes que dura uma vida).
Com toda esta relação, conclui-se notando que obras aparentemente distintas podem dialogar e inclusive se complementar, conforme novos conhecimentos surgem para a humanidade.
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