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Caros leitores despidos,

Vocês bem perceberam que este blog está desativado há muito tempo. Por isso, altamente recomendo que entrem no meu novo blog:

www.ensaiosdegenero.wordpress.com

O meu novo blog está bastante ativo, com várias atualizações por semana.

Acompanha-me por lá. E siga-me no twitter: @asenkevics

Abraços!

Sim, pessoal, o Letras Despidas está morto mesmo e pode ser deletado a qualquer momento em breve. O WordPress não está me deixando deletar o blog, mas, dependendo de mim, já tinha sido faz tempo.

Criei um novo blog que é muito mais minha cara atualmente: www.ensaiosdegenero.wordpress.com

Visitem!

Meu segundo vídeo do Canal Desconstrução, no YouTube. Assista!

Faço uma introdução às relações sociais de gênero, presente nos demais vídeos que já gravei ou que pretendo. Discuto o conceito de sexo e gênero, tentando diferenciá-los e mostrando a importântica dessa diferença para os estudos das relações sociais.

Inscreva-se no meu canal para obter os próximos vídeos. Toda quinta-feira vai ser atualizado!

Quem mora na cidade de São Paulo, certamente conhece o cinema Belas Artes. O cinema existe desde 1943, na esquina de duas das mais importantes avenidas da cidade: a Av. Paulista e a Rua Consolação. Desde sua fundação, o cinema foi uma referência da sétima arte. Infelizmente, o Belas Artes vai fechar as suas portas no fim de janeiro, o que representa uma perda imensurável para a cidade.

Um pouco de história

O cinema, quando ainda era Cine Ritz, em 1961.

Após ser fundado com o nome de Cine Ritz e, anos mais tarde, dar lugar ao Cinema Trianon, em 1967 passa uma reforma e ganha o tradicional nome Cine Belas Artes. Em 1983, passa por uma nova reforma, ganhando seis salas e se tornando o primeiro multiplex da cidade, com o nome de Gaumont Belas Artes.

Nessa reforma, cada sala recebe o nome de um grande artista brasileiro, a saber: Carmen Miranda, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Villa-Lobos e Mario de Andrade, cada um, inclusive, com sua respectiva área de especialidade: música e atuação, pintura, arquitetura, escultura, composição e literatura.

Espectadores aguardam abertura do cinema, em 1990.

Assim o cinema se manteve até 2002, quando entrou em crise e o seu fechamento foi anunciado. Mobilizando-se para manter o tradicional cinema, no ano seguinte o Belas Artes ganha um novo proprietário, André Sturm, e a produtora O2, do Fernando Meirelles, associa-se ao cinema. A possibilidade de fechamento do cinema resulta em protestos.

No fim de 2003, o banco HSBC passa a patrocinar o cinema, financiando uma grande reforma. O nome mais uma vez muda, passando a se chamar HSBC Belas Artes. Desde então, o cinema vem seguindo com sua programação que mistura lançamentos com clássicos do cinema, além do Noitão, evento que acontece mensalmente e conta com a exibição três filmes a partir da meia noite.

Por que o cinema vai fechar?

Protesto contra a ameaça de fechamento do cinema em 2002.

Em 2010, o cinema anunciou um possível fechamento após o banco HSBC encerrar o patrocínio. Seria impossível manter o cinema apenas com o dinheiro arrecadado pelos ingressos. Quando o cinema mudou novamente o nome, apenas para Belas Artes, o proprietário atual, ainda o André Sturm, passou a procurar empresas para um novo patrocínio. Essa demanda resultou, inclusive, em campanhas e abaixo-assinado virtual.

Um novo contrato estava sendo fechado no fim do ano passado, mas o proprietário do local, Flávio Maluf (surpreendentemente não é filho de Paulo Maluf, mas poderia ser…), pediu o imóvel de volta. Procurado pela reportagem da Folha, esboçou uma resposta: “Perderam o prazo” e mandou falar com o advogado, que não deu depoimento.

A fachada atual do cinema.

Sturm disse que Maluf rompeu o contrato. O proprietário afirmou que, após fechar o patrocínio, pagaria um aluguel de R$ 62 mil. Mesmo assim, Maluf ordenou o fechamento do cinema. No fim de janeiro, o Belas Artes fecha as suas portas e será demolido para a construção de uma loja, ainda não especificada.

Embora o encerramento das atividades do Belas Artes já esteja certa, Sturm e seu braço direito, Léo Mendes, afirmaram ter planos para reabrir as salas em algum outro canto da cidade e manter a programação tal qual originalmente, inclusive com os Noitões, que já chegaram a reunir, nas madrugadas, em torno de mil pessoas.

Considerações finais

O interior do cinema atualmente.

É uma perda muito grande o fechamento do cinema. O Belas Artes é um cinema de rua, condição rara na nossa cidade lotada de cinemas de shopping, extremamente comerciais e com preços exorbitantes. O Belas Artes é muito mais barato (cobrava, até o ano passado, R$ 8,00 de segunda e quarta e R$ 16,00 nos demais dias). Os Noitões custavam R$ 18,00. De segunda-feira, professores pagavam meia-entrada apresentando holerite.

O cinema funciona das 14h até o fim do dia, com as seções de filmes clássicos, chamada Cineclube, por volta das 19h30. Tem um ambiente bonito, diria até romântico, no sentido de ser nostálgico. Nele, não passam os filmes que, nos cinemas comercias, ocupam três salas ao mesmo tempo. É uma perda lastimável.

Projeção de cena do filme "Medos Privados em Lugares Públicos", mantido em cartaz desde 2007.

Fernando Meirelles comentou: “Infelizmente não há nada parecido com o Belas Artes na cidade. O pior de tudo foi saber que o cinema vai sair dali para dar lugar a mais uma lojinha. Caramba, São Paulo já tem tanta lojinha. Não entendo esta compulsão por compras. Acho que nasci na época errada.”

É triste, pois é mais patrimônio da cidade que é demolido pelo pragmatismo, pelo lucrativo, pelo rentável. Vale lembrar que diversos patrimônios têm perdido espaço. A antiga USP, uma casarão na Alameda Glete, foi demolida para se tornar um estacionamento. O Auditório Ibirapuera, há alguns meses, perdeu o patrocínio da Vivo. O MASP enfrenta uma dívida imensa após a privatização da Eletropaulo que, quando era estatal, mantinha um acordo de não cobrar a luz consumida pelo museu. Isso sem contar os espaços verdes que frequentemente perdem para especulação imobiliária.

São Paulo está cada vez mais se tornando um aglomerado de prédio residenciais de elite e prédios comerciais executivos. Em todo canto da cidade, há prédios em construção. A quantidade de carros que é despejada mensalmente é absurdamente alto. A qualidade de vida está despencando na cidade, e todos aqueles locais que mantém algum clima melhor, como o Belas Artes, acabem sendo trocados ou abandonados.

Um abaixo-assinado está rolando no endereço http://www.abaixoassinado.org/assinaturas/assinar/7873 para deixar nossa insatisfação registrada. Um protesto vai acontecer no dia 15 de janeiro, às 20h, na frente do cinema.

Os números de 2010

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Uau.

Números apetitosos

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Um duende das estatísticas pintou esta imagem abstracta, com base nos seus dados.

O Museu do Louvre é visitado por 8,5 milhões de pessoas todos os anos. Este blog foi visitado cerca de 150,000 vezes em 2010, o que quer dizer que se fosse uma exposição no Louvre, eram precisos 6 dias para que as mesmas pessoas a vissem.

In 2010, there were 29 new posts, growing the total archive of this blog to 432 posts. Fez upload de 66 imagens, ocupando um total de 5mb. Isso equivale a cerca de uma imagem por semana.

The busiest day of the year was 26 de maio with 818 views. The most popular post that day was Língua Portuguesa e o Estrangeirismo.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram google.com.br, search.conduit.com, orkut.com.br, search.babylon.com e br.answers.yahoo.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por estrangeirismo, vida, estrangeirismo na lingua portuguesa, futuro e construção chico buarque

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Língua Portuguesa e o Estrangeirismo julho, 2007
128 comentários

2

Chico Buarque – Construção julho, 2007
102 comentários

3

O que é uma Corporação ? junho, 2007
35 comentários

4

Chico Buarque – Atrás Da Porta julho, 2007
39 comentários

5

Mundo Moderno – Chico Anysio março, 2008
11 comentários

Marcado por um realismo muito bem executado, o filme retrata a realidade educacional francesa e sugere um panorama da sociedade francesa contemporânea. Ótima produção e muito rico em conteúdo.

Avaliação: muito bom

O longa-metragem Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008), dirigido por Laurent Cantet, assemelha-se, em alguns pontos, com outro filme francês que retrata o cotidiano escolar, Nosso Professor é um Heroi (1996), mas o primeiro ganha por conter muito mais significados e realismo. O filme pode ser analisado por dois prismas principais: a questão da educação em si e o reflexo da mesma como um panorama da sociedade francesa contemporânea.

François Bégaudeau na sala de aula: cenário predominante do filme

Ficando, literalmente, entre os muros de uma escola pública da periferia parisiense, retrata-se um ano letivo de alunos da sétima série. Focando na aula do professor de língua francesa, François (François Bégaudeau), docente que já trabalha na escola há alguns anos, acompanhamos os conflitos em que alguns alunos e alunas – aquelas “figuras carimbadas” – entram com o professor por praticamente qualquer coisa.

À primeira vista, diante de tantos atritos, atestamos os problemas na convivência em sala de aula e na relação professor-aluno, obstáculos que podem ser facilmente comparados com a realidade brasileira. A questão não é só uma dificuldade de se ensinar, mas principalmente no de construir um sentido para tudo aquilo: por que a escola? Esse questionamento tem se mostrado bastante presente no panorama educacional, configurando o que se conhece pela crise do ensino e suas derivações: má qualidade, “fracasso escolar”, gestão administrativa deficiente, pouco investimento etc.

A questão de como ensinar diante da diversidade de alunos e dos problemas da escola

No filme, logo após a reunião que abre o ano letivo, vemos um professor veterano com a lista de alunos indicando “esse é bonzinho, esse não é bonzinho, esse não é nem um pouco bonzinho”. A lista não surpreende pela quantidade de alunos classificados como “maus”, e sim pela construção a priori da imagem dos alunos, o que certamente influencia na maneira como o professor vai lidar com os mesmos.

Vemos, para citar algumas cenas, os estudantes questionando por que o professor François sempre utiliza nomes americanos, como Bob, para servir de exemplo em frases de língua francesa, em vez de nomes africanos ou asiáticos. Isso faz muito sentido no quadro francês, em que há uma miscigenação muito grande. Essa questão fica muito clara no filme e é justamente neste ponto em que ele extrapola os “muros da escola”.

Os professores reunidos: entre crises, preconceitos, desencantos e também vontade

Há outras partes interessantes: a aluna que não se interessa nem um pouco pela leitura do Diário de Anne Frank, adotado pelo professor, e diz ter lido, se interessado e entendido A República, de Platão. Assim como uma outra aluna, muito quieta, que passa invisível ao espectador o filme todo e diz não ter aprendido nada no final do ano letivo.

É possível ministrar um curso inteiro sobre educação apenas usando o conteúdo do filme. Por isso, para não me alongar muito nas questões levantadas, vou comentar alguns pontos da produção.

François na literatura, roteiro e interpretação: autor, coautor e ator de si mesmo

A grande marca do filme é o realismo, narrada em tom semidocumental. Primeiramente, não há trilha sonora e as imagens são captadas, em grande parte, por câmeras de mão, que tem o mérito dar a sensação de inclusão do espectador na cena.

O elenco é composto majoritariamente por atores não profissionais. Os alunos, por exemplo, são mesmo estudantes da sétima série. Assim como o protagonista, François Bégaudeau, que escreveu o livro que serviu de base, participou da elaboração do roteiro e atua no filme interpretando a si mesmo.

Outro ponto, este bastante interessante, é que foram permitidas muitas improvisações sobre o roteiro, de modo que a aula soasse o mais natural possível. Logo, nem tudo o que vemos foi ensaiado, sendo produto do próprio clima da aula que era recriada.

Logo, em termos de produção e conteúdo, esse filme acerta muito bem. Vale a pena conferir e refletir os problemas levantados em Entre os Muros da Escola.

Cartaz original do filme

Direção: Laurent Cantet
País: França
Ano: 2008

Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Dalla Doucoure
Produção: Caroline Benjo, Carole Scotta
Roteiro: Robin Campillo, Laurent Cantet, François Bégaudeau, baseado em livro homônimo de François Bégaudeau
Fotografia: Pierre Milon

Após apresentar, no texto anterior, o problema do mérito e por que, apesar de suas dificuldades, ele ainda pode ser evocado, concluí, baseado em texto de François Dubet, que são necessárias outros modelos de justiça escolar para compensar os problemas naturais da meritocracia. Neste texto, vou me concentrar em uma dessas possibilidades.

A justiça distributiva

Dado que as desigualdades sociais existem e acarretam um peso sobre a escola, uma possibilidade de ação desta seria levar em conta as desigualdades e “dar mais a quem tem menos”. Esse conceito, de dar mais oportunidades para aqueles que já partem de menos, é também conhecida como discriminação positiva e, usualmente, leva à formulação de políticas compensatórias.

Para essas populações, a justiça distributiva não é válida

Em outras palavras, buscam-se mecanismos que possam compensar as desigualdades concentrando os esforços nas populações menos favorecidas. Essas políticas fazem parte da nossa realidade, como comentarei a seguir. Embora essas políticas sejam bem intencionadas, elas encontram forte resistência e possuem dificuldades.

A primeira dificuldade é o choque com os interesses de elite, cujo modelo tradicionalmente meritocrático assegura suas vantagens. Infelizmente, as elites possuem um poder de influência alto capaz de barrar a justiça distributiva apoiando-se nos argumentos liberais conservadores de se estar produzindo uma injustiça. A despeito disso, uma dificuldade inata da justiça distributiva é que sua influência é limitada, tendo um papel de atacar mais as conseqüências que as causas de um problema.

Políticas compensatórias na realidade brasileira

Essas medidas compensatórias estão presentes na nossa sociedade e geralmente causam muita polêmica: o regime de cotas raciais e sociais, a porcentagem de pontos dados gratuitamente para alunos de escola pública no vestibular, programas específicos para grupos de baixa renda (por exemplo, o Projeto Guri), gratuidade para visitas agendadas em museus por escolas públicas, bibliotecas itinerantes apenas em bairros de periferia, bolsa família etc.

Bolsa família: um exemplo de política compensatória (que encontra forte resistência)

São todos exemplos de aplicações da justiça distributiva: favorecem as classes, grupos, raças, etnias, menos favorecidas, historicamente falando. É uma forma de justiça que rompe com a suposta igualdade de oportunidades, pois, naturalmente, as políticas compensatórias não têm a meta de promoverem a igualdade no seu sentido mais estrito, e sim de retrabalharem as desigualdades, sendo inclusivos “injustos” no sentido de darem mais oportunidades apenas a uma parcela da população. Logo, essas políticas ferem o princípio liberal de igualdade perante a lei, o que não é, na verdade, nenhum pecado.

De maneira alguma condeno a justiça distributiva por criar essa discriminação positiva (isso não significa que concordo com todas as medidas compensatórias atuais). Seria de extrema ingenuidade acreditar que todos temos as mesmas oportunidades. Apesar dela ser necessária para corrigir problemas históricos, devemos ter consciência de que sua eficiência é limitada e mudanças muitos maiores devem ocorrer na sociedade, para quem essas políticas não sejam mais necessárias, ou seja, quando não for mais necessário ser “desigual para poder ser igual”.

Meu primeiro vídeo, postado no meu canal Desconstrução, no YouTube.

(Para obter os links citados no vídeo, clique sobre o próprio vídeo que vai ser direcionado para o site original, com mais detalhes.)

Espero que gostem!

Texto originalmente publicado no jornal mensal “RNA mensageiro”, organizado pelo Centro Acadêmico da Biologia – USP. (pequenas modificações foram realizadas para adaptá-lo ao blog)

Nas últimas semanas, um grupo de discussão do qual faço parte tem discutido educação brasileira e ao elencar três tópicos essenciais a esse grande tema, a saber: meritocracia, avaliação escolar e progressão continuada, nos deparamos ao que parece ser um problema central na busca de uma escola pública que, além de conquistar a tão almejada ‘qualidade de ensino’, seja justa para com seus estudantes: a avaliação.

A justiça escolar

Em texto amplamente adotado por cursos de sociologia da educação, o sociólogo francês François Dubet discute possíveis noções do que seria uma escola justa. Na atual sociedade democrática, em âmbito global, o principal modelo adotado é o modelo meritocrático, isto é, baseado no mérito. Em poucas palavras, a escola estaria bastante adequada a lidar com os estudantes de maior destaque, aqueles que obtêm as melhores notas.

Porém, as dificuldades e limitações desse sistema não poderiam deixar de ser mencionadas: a oferta de um ensino de qualidade é irregular, os alunos possuem bases e formações diferentes, os piores alunos são culpados pelo seu fracasso, enfim, uma série de implicações que estão longe de ser justas. É da própria natureza da meritocracia, por exemplo, a produção maior de “vencidos” que de “vencedores”.

A despeito de todas essas dificuldades, que impõem a necessidade de outras concepções de justiça ao menos mescladas à meritocracia, é assim que a educação tem sido tratada no nosso Estado. Há dezesseis anos no poder, o governo do PSDB, por meio de figuras como a ex-secretária da educação Maria Helena Guimarães de Castro, implantou uma série de políticas essencialmente meritocráticas (como o bônus salarial para os professores que apresentarem os melhores resultados), sem que houvesse um comprometimento responsável com uma sociedade estigmatizada por problemas estruturais de carência dos serviços públicos e alta desigualdade social.

O papel da avaliação

Por meio das análises de Cipriano Luckesi, vemos como a avaliação escolar tem um papel central na produção e/ou legitimação do fracasso escolar. Em última instância, é ela que dá um sentido à escola, o que é facilmente atestável quando vemos a preocupação excessiva em “tirar nota” ou “passar de ano”, configurando o que Luckesi chama de Pedagogia do Exame: a finalidade da educação torna-se a avaliação em si.

Quando Dubet discute justiça escolar, ele está pensando exatamente na relação que se estabelece entre o professor, a escola e seu alunado. Luckesi, por meio da avaliação, mostra como essa relação é estabelecida e consolidada. Será que a avaliação teria um papel classificatório (os melhores x os piores), seletivo (aprovados x reprovados) ou punitivo (uma prova difícil para compensar a “bagunça” dos alunos)? Ou será que a avaliação teria um papel diagnóstico, como um instrumento para o desenvolvimento da aprendizagem?

Não é só a função da avaliação que é posta em xeque, mas principalmente o que os docentes entendem por ela. Uma nota ou conceito não são nada mais que formas de medir, de examinar. Avaliação, mesmo, só existe quando, a partir desse diagnóstico, sabe-se agregar um valor, interpretando os dados e pensando em como intervir.

Progressão continuada

De todos os aspectos da escola, o mais afetado pela implantação da progressão continuada é avaliação escolar, como aponta a professora da Faculdade de Educação da USP Sandra Zákia Sousa. A progressão continuada é uma consequência da organização do ensino em ciclos, ao contrário das séries.

No modelo mais conhecido, seriado, o aluno pode reprovar a cada ano do ensino fundamental se não alcançar o esperado. No ensino em ciclos, há um ciclo que envolve o fundamental I e outro ciclo para o fundamental II. Dentro do ciclo, o aluno não pode reprovar, apenas na passagem de um para outro ou para o ensino médio.
A progressão continuada não elimina a avaliação, mas dá a ela outro sentido: respeitando o ritmo de cada aluno, a avaliação ganha um caráter constitutivo, fazendo parte constantemente do processo de ensino-aprendizagem. Toda uma reformulação da organização da escola torna-se necessária, permitindo a formação de classes pela soma da idade com o aproveitamento do aluno, acompanhamento paralelo ao ensino regular, pedagogias adequadas a cada turma de alunos etc.

Entretanto, pode-se questionar se o problema central seria mesmo o modelo de ensino seriado, uma vez que ambos os modelos só poderiam alcançar bons resultados se na escola houvesse infra-estrutura melhor, valorização dos professores, financiamento maior, menos alunos por sala de aula, ou seja, exatamente o contrário da situação atual. Não obstante, no Estado de São Paulo ainda há o confronto entre a progressão continuada, implantada em 1997, com as políticas meritocráticas (a mais atual, proposta por Paulo Renato Souza, prevê a premiação em dinheiro aos alunos que frequentarem o reforço).

Conclusão

É extremamente pertinente discutir avaliação escolar e seus efeitos na educação, sendo inútil realizar modificações estruturais na escola se todo o sentido do aprendizado se resumir a algumas notas. Justamente por acreditar que a pedagogia tem um papel na mudança da sociedade, devemos estar cientes de que uma escola mais justa deve dar um novo significado à avaliação.

Entretanto, Dubet nos lembra que nenhuma escola consegue, sozinha, criar uma sociedade mais justa. A afirmação é válida, mas não retira a responsabilidade dos educadores na busca por uma escola e sociedade melhores. Se a escola reflete, sim, as dificuldades históricas que a sociedade enfrenta, é também a própria escola que poderá criar novos sentidos à avaliação. Essa é uma longa caminhada que talvez perpasse pela própria reestruturação escolar, como sugere a progressão continuada, mas, independente disso, nos mostra a importância de estarmos conscientes do que é uma escola justa e que conceito de justiça procuramos.

A morte não é natural

Muito se busca, pelas mais diferentes esferas da vida, uma tal natureza humana. Trata-se de uma essência comum a todos os homens e mulheres: a naturalização de definições do que seria humano, quando não a tentativa também de delinear uma natureza masculina e outra feminina. Nego todos os conceitos de natureza humana. Para entender essa negação, o ideal é começar entendendo por que a morte não nos é natural. Costuma-se dizer que “a única certeza da vida é que um dia iremos morrer”. Será?

A morte não é da nossa natureza

Evidentemente, quando dizemos que alguém morreu de “morte natural”, estamos nos referindo a uma morte provavelmente relacionada à velhice, um falecimento que independe de acidente, doenças infecciosas ou qualquer outro tipo de doença mais “inesperada”. Pois uma parada cardíaca em um jovem de quinze anos é, sem dúvida, uma morte que chama a atenção, enquanto que a mesma causa mortis para uma senhora de noventa anos soa mais aceitável. Aceitamos porque sabemos, com convicção, de que um dia todos irão morrer.

Mas, repito, a morte não nos é natural. Quando nascemos, nosso corpo não sabe que iremos morrer: não estamos programados para a morte, e sim para vida. Nosso corpo metaboliza, funciona, cresce e está sempre, inclusive do ponto de vista biológico, impulsionado à vida. Porém, não somos infinitos. Um dia, se não morrermos por conta de nenhuma causa “inesperada”, nosso corpo pára de funcionar e, enfim, morremos.

Há em torno de seis bilhões de seres humanos no mundo. Como podemos garantir que todos vão morrer um dia? Não temos garantia, não sabemos da morte a não ser quando ela chega. Logo, a morte não está prescrita no ser humano, assim como não está prescrita em nenhum organismo. Aqueles insetos que se reproduzem e depois morrem, aquelas plantas que dão frutos uma vez e morrem, também não fogem à regra: a morte lhes aparece porque seu corpo, a partir de certo momento, interrompe a manutenção dos processos vitais, o que ocasiona a morte. Mas a morte, como uma característica, não está impressa, não é essência.

Descritivo x Prescritivo

Quando falei que a morte não está prescrita, digo que não há um projeto, um programa, de morte presente em nós. Morremos – e concluímos que todos vão morrer – porque fazemos uma indução: vemos que as pessoas vão morrendo, que não há ninguém que tenha sobrevivido, por exemplo, até os 150 anos de idade (alguns chegaram perto, mas são raros casos) e, portanto, concluímos que todos vão morrer: não é nada mais, nada menos, que uma inferência. O filósofo da ciência Karl Popper diria que essa é uma verdade temporária, mantida enquanto verdade até que se prove o contrário. Sim, é uma verdade, todos vamos morrer. Mas é uma verdade frágil, sem premissas sustentáveis.

Estamos descrevendo o que vemos na realidade. Logo, a morte é um fenômeno puramente descritivo: olhando as partes, concluímos o todo. Não é prescritivo, como nada no ser humano. Isso é que vou tentar mostrar em outros textos. Por ora, vamos nos contentar em fragilizar o conceito de morte.

Podemos pensar o que quiser. Um dia meu coração vai parar de bater, minha mente vai parar de funcionar e vão me declarar morto. Não há nada de estranho em concluir que a morte não nos parece natural. Nós somos capazes de atribuir os mais diversos significados a qualquer fenômeno. Nossa cultura simbólica é extremamente rica. Há quem veja a morte como as portas para uma nova vida ou como uma etapa cíclica de um processo interminável. Não importam as diferentes concepções: elas não alteram a frieza da morte. Morremos, fim!

Logo, não estou negando a ideia de que vamos morrer. Seria uma tolice afirmar isso. O que estou querendo dizer é que a morte existe porque nosso corpo não consegue viver para sempre. Não é questão de dizer se ele está ou não programado: ele simplesmente não vive. Podemos passar uma faca pelo nosso pescoço e acabar com tudo que construímos na vida. Ou simplesmente podemos ir vivendo que um dia, sem precisar de faca, cairemos num caixão. A morte acontece, mas não está impressa na nossa essência, não nos pertence. A razão é simples: não existe natureza humana.

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