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Desculpem!

Leitores despidos,

Me desculpem pelo abandono. Isso chama-se abandono mesmo. Não tem palavra melhor que define esse descaso. O blogue (vou escrever “blogue” em vez de “blog”) era atualizado toda semana, costumamente mais de uma vez por semana, e de repente se vê a mais de um mês sem nada.

Motivo: não é falta de tempo. Tempo eu até tenho. O problema é uma crise de inspiração e talvez de vontade de escrever. Parece que não sinto mais essa necessidade. Antes, vira e mexe eu queria dizer algo. Agora sinto que estou só mudando, só aprendendo e não me sinto apto a escrever.

No entanto, também não tenho coragem de deletar o blogue. Vou mantê-lo, num esquema “morte cerebral”: na prática, está morto, mas o coração ainda bate. Até quando?

Não sei, talvez eu não queira mais escrever o mesmo que escrevia antes. Só que a proposta do blogue não pode mudar radicalmente. O Letras Despidas não pode deixar de ter o padrão que tinha para virar recanto de outros textos que em nada se relacionam com sua história. Isso mereceria um novo blogue. Só que não quero apagar os três anos de vida deste.

Vou mantê-lo, na esperança de que minha vontade de escrever volte. Infelizmente, o Letras Despidas não é mais o mesmo. Piorou…

Inspirado no livro “Como um Romance”, de Daniel Pennac.

Ninguém tem tempo para ler. A vida parece um entrave à leitura. Eu não tenho tempo para ler, você não deve ter, ninguém tem. Não existe um tempo para isso.

Porque o tempo para ler é sempre um tempo roubado, assim como o tempo para escrever, ou para amar (ninguém diz “vou amar hoje das cinco às seis”). Roubado do quê?

Roubado da obrigação de viver. Mas se ler é um gosto pessoal, fazer o que gosta também é uma obrigação. Posso ter milhares de tarefas, mas meu chefe não vai me impedir de terminar um romance.

A leitura, assim como o amor, não depende da organização da rotina, ela é uma maneira de ser. Não é um tempo que lhe é dado, mas é você que se entrega ou não a ele. É você que se oferece às felicidades da leitura.

As pessoas vivem dizendo que não tempo para as coisas, por isso nunca tentam. Quando se colocam mais coisas na rotina, ela se rearranja. Roube tempo para o que te satisfaz. Não espere o tempo vir, porque ele nunca virá.

Eu carrego o tempo para ler comigo. Ele está no meu bolso, na minha mochila, ou em cima da escrivaninha. No meio da aula, no caminho para casa ou deitado na cama, eu me usurpo ao me dedicar à leitura. Ler é uma transgressão.

Talvez por isso ninguém tenha tempo para ler.

Machismo sexual

Vivemos numa época em que valores tradicionais, como a castidade, estão em baixa. Hoje, a juventude vai às baladas e usufruem prazeres que, há algumas décadas, eram recheados de pudor. Em meio a essa liberação sexual tanto entre homens quanto mulheres, que ocorreu principalmente nas sociedades ocidentais, vale a pena nos perguntar se realmente nos libertamos do tradicionalismo até então vigente.

Analisando especificamente o caso da igualdade de sexos, a resposta é não. Falar de mudanças na sociedade é falar num tom político. E, óbvio, é de certo modo um ato político dois homens andarem de mãos dadas na rua, mais até do que uma demonstração de afeto. Porém, a liberação sexual, entendida hoje como ficadas sem compromisso, se banalizou, tornando-se modismo de juventudes que, alienadas, buscam apenas um prazer pessoal.

Viva a liberação sexual!

Viva a liberação sexual!

Não há política nas micaretas. O garoto de classe média vai com a intenção de “pegar” várias meninas, apoiando-se em conquistas liberais anteriores, sem ter a menor consciência disso. A própria visão de “pegar” mulheres, somada à objetificação do sexo, são visões conservadoras e machistas.

Não quero dizer que o homem se aproveita da mulher nas baladas, até porque é recíproco. Individualmente, tanto a mulher quanto o homem se beneficiam dessa liberdade. Coletivamente, a mulher sai prejudicada. São elas que majoritariamente são consumidas pela indústria da beleza e do sexo.

Os homens as consomem, eles compram a beleza. É claro que também são alvos desse ideal, mas um homem “sarado” tem um significado por si só. Ele existe como um macho dominante, no caso, “pegador”. Enquanto que as mulheres “gostosas” existem em relação a ele, são objetos para ele, e o seu prazer é apenas um anexo de um prazer maior voltado para a satisfação masculina.

Reafirma-se o que bem escreveu a escritora feminista Simone de Beauvoir: “O homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. Ela não é senão o que o homem decide que seja.”

Liberação sexual: sempre política?

Liberação sexual: sempre política?

Uma mulher que sai na Playboy pode até se achar feminista, porque os homens a idolatram tal qual um romântico idealiza a mulher amada. Ela, a modelo, se põe num patamar superior, parece ser dominante, exibe caras e bocas provocantes, procura poses inéditas que tentam subjugar o homem. Mas não percebem que, sendo reféns da beleza, caem na ilusão de que conquistam seus direitos não abrindo a cabeça, e sim as pernas.

Assim, embora a sociedade tenha visto avanços nos direitos femininos, que reduziram o machismo profissional, intelectual e político, ainda é fortalecido uma outra forma de machismo: o machismo sexual.

Enquanto se “pornifica” tudo, até propaganda de cerveja, as gerações vão sendo educadas de modo que ser homem vira sinônimo de ver sexo onde não tem. O sexo está em tudo, na mesma proporção em que não está em nada. Comprar um carro não é sexo, passar creme antiacne ou fazer a barba também não, mas estão associados pela publicidade.

As gerações sexualmente liberais acreditam estar exercendo uma liberdade social e política, quando na verdade tornam-se mantenedoras de tradicionalismos que apenas se reformulam para continuarem existindo.

Estavam numa floresta doze amigos. Foi-lhes proposto um desafio: disseram que havia um unicórnio na floresta, que não podia ser visto, ouvido, tocado, cheirado e nem deixava rastro. Venceria o desafio quem provasse que ele não existe. Aí começa:

Unicórnio

João, o empirista, logo se pronuncia: “Se não podemos experimentar, se não podemos sentir que haja um unicórnio nesta floresta, é claro que ele não existe” e encontra apoio em Piro, o cético, que completa com “ver para crer”. Ambos deram-se por satisfeitos.

Renan, o racionalista, negou-os, argumentando que a experiência pode ser enganosa. “Por mais que pudéssemos sentir os unicórnios”, diz ele, “a sensação não descreve uma realidade. É impossível encontrar os pensamentos deles, o que por si só já definiria sua existência.”

Chico, o indutivo, solta uma gargalhada e, defendendo João, diz que nunca foram vistos animais unicórnios, o que já basta para dizer que eles inexistem. João e Piro concordam, mas Renan provoca: “Como você pode assumir como verdade que não há unicórnios?”

Emanuel, o iluminista, intervem para apaziguar a discussão: “Acalmem-se, o que vemos é influenciado pelo modo que queremos ver. Sabendo que há cavalos e que há animais com chifres, juntando os dois temos o unicórnio.” Todos fizeram cara de ponto de interrogação. “Logo, sua existência é um misto da nossa experiência com nossa razão.” Resultado: amarram-no numa árvore com um pano sobre a boca.

William, o pragmático, discute a utilidade de se provar a existência do unicórnio, falando que se não há um fim prático para isso, é perda de tempo. Renan sugere que o unicórnio seja perfeito, o que leva Ricardo, o probabilista, a opinar que ele muito provavelmente não exista, pois para isso haveria de existir um ser mais perfeito que o teria criado, e que aquele seria criado por um outro ser ainda mais perfeito e por aí vai…

Carlos, o evolucionista, diz que numa floresta como aquela, ter chifres não seria vantajoso, tampouco adaptativo, com isso, a natureza não o selecionaria, pelo contrário, se encarregaria de exterminá-lo. Chico insiste que nenhum animal com chifre é unicórnio. Aproveitando essa máxima, Evaristo, o lógico, diz que todos os unicórnios possuem chifres, o que o leva a concluir que alguns animais com chifres não possuem chifres.

George, o idealista, trata a realidade como um movimento constante, um espírito: “Se afirmamos a existência do unicórnio com base no que sabemos, estamos negando outras verdades, porque…”, “Cale-se!”, grita Fred, o niilista. “Não há verdades, o unicórnio é uma criação contextualizada dos valores humanos.”

Floresta

Renan se impõem: “O unicórnio é perfeito, portanto sua existência é inerente!” Fred apanha uma espingarda e dispara aleatoriamente para o meio do mato, comemorando: “O unicórnio está morto! Eu o matei!” Renan irrita-se e pula com as duas mãos no pescoço do colega, levando os dois ao chão. Chico tenta separá-los.

Paulo, o existencialista, fala: “Se imaginamos que o unicórnio exista, estamos projetando uma essência anterior à sua própria existência, o que é incorreto. Primeiro ele existe, depois se define no mundo.” George reclama: “Só o racional é viável!” Paulo continua: “Quieto! Ainda que ele existisse, isso em nada afetaria o homem.” George provoca: “Vamos ver se não?” e ataca uma pedra na direção de Paulo, “segura esse unicórnio, quatro olhos!”

O grupo parte para a briga. Eram urros, gritos e ofensas. Camisas surradas, sapatos voando, cabelos despenteados. Quando, de repente, chega um outro elemento, que ninguém até então conhecia, e diz pacificamente: “Eu acredito na existência do unicórnio acima de qualquer coisa. Não preciso senti-lo materialmente nem obtê-lo por deduções, posso senti-lo dentro de mim, independente do que dizem ou provem. O unicórnio, enfim, existe.”

Moral da História: A ciência não será nunca capaz de provar a inexistência de Deus, não importa o método ou tecnologia que adote. Da mesma forma, nunca será provada sua existência e Deus permanecerá para sempre no terreno relativo das ideias. Podemos ser imagem e semelhança Dele, ou Ele da nossa.

O empírico, o racional ou a lógica não competem com doutrinas que encerram em si mesmas, tendo como conclusão as próprias premissas que as sustentam. Perto da fé, caro leitor, a ciência parece brinquedo de humanóides. O que não nos impede de dizer que Deus está morto, de acreditar no nosso livre-arbítrio, de negar um destino, de não engolir valores. Criemos o nosso unicórnio, pois, ainda que Ele exista, nada compensa a Nossa existência.

No capítulo passado, vimos como Getúlio Vargas saiu do poder, em 1945, entrando um período de democracia após a ditadura do Estado Novo. Esse novo período iniciou-se com a entrada do general Dutra ao poder. Na música, pode-se destacar o lançamento de Aquarela do Brasil e a emergência de um símbolo tropical, Carmem Miranda.

O retorno de Vargas

Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

Havia uma canção que dizia “Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar”, se referindo à volta do “pai dos pobres”. Por outro lado, o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN (União Democrática Nacional) e dono do jornal Tribuna da Imprensa, fazia forte oposição ao presidente populista, insinuando até em fazer uma revolução para tirá-lo do poder.

Por mais curioso que pareça, Getúlio Vargas renunciou do poder, que havia tomado pela Revolução de 30, e voltou ao poder eleito democraticamente após o governo de Dutra, ficando de 1950 a 1954.

Neste novo governo, Getúlio, que possuía um discurso nacionalista (com restrições ao capital estrangeiro, Estado intervencionista e fortalecimento das leis trabalhistas) acabou cedendo às pressões dos políticos que compunham a maioria do seu ministério, defensores do livre mercado, eliminação de algumas conquistas trabalhistas e ação do capital internacional.

Entretanto, sem ceder completamente ao “entreguismo”, Vargas apoiou o lema “O Petróleo é Nosso” e criou a Petrobrás em 1953, para exploração dos recursos petrolíferos nacionais.

Pré-bossa

No pós-guerra, as marchas e os sambas eram mais tocados no Carnaval, porque durante o ano predominava, nas rádios, um outro tipo de samba, influenciado pelo bolero, que era o samba-canção. Este gênero musical era mais melodioso, tratava de solidão, amores desfeitos, ultra-romantismo. Os efeitos da guerra nos deixou na “fossa”, com “dor-de-cotovelo”, como apelidos para a produção musical da época.

Capa de disco de Dick Farney e Lúcio Alves

Capa de disco de Dick Farney e Lúcio Alves

De influência norte-americana, a maneira de se cantar samba mudou. Dois cantores da época, Dick Farney e Lúcio Alves, gravaram juntos uma famosa canção, de Billy Blanco e Tom Jobim, este ainda pouco conhecido, chamada Tereza da Praia. No vídeo abaixo, veja o trio de Dick Farney cantando esta canção, infelizmente não encontrei a versão com Lúcio Alves.

Apenas para constar, veja o vídeo abaixo, da canção A Saudade Mata a Gente, interpretada pela dupla Dick Farney e Lúcio Alves:

O suicídio

Carlos Lacerda

Carlos Lacerda

Em 1954, ocorre o “atentado da Rua Toneleiros”, Copacabana, na qual tentaram, sem sucesso, matar o jornalista Carlos Lacerda na porta da sua casa. Em poucas horas descobriu-se o mandante do crime: foi o chefe da guarda pessoal de Getúlio. Embora não se tenha provado o envolvimento de Vargas com o caso, a campanha oposicionista, que pedia sua renúncia, ganhou forças.

No mesmo mês do ocorrido, especificamente na madrugada de 24 de agosto, Getúlio Vargas se suicida com um tiro no coração. Sua carta-testamento, que serviu de inspiração até para canções, terminava dessa forma: “Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Pré-bossa, ainda “fossa”

Fatos marcantes: suicídio de Getúlio, morte de Carmen Miranda e a perda da Copa do Mundo na inauguração do Maracanã, de 2×1 para o Uruguai, sendo que um empate já bastava para a vitória. Nélson Rodrigues dizia que estávamos vivendo a síndrome de vira-latas.

As reuniões entre os músicos de “fossa” continuaram, e os fãs-clubes de Farney e Lúcio Alves cresceram, revelando novas músicos. Um deles Johnny Alf, de nítida influência do jazz, num pout-pourry no vídeo abaixo:

Outras revelações foram Sílvia Telles, Dolores Duran e João Donato. Há também, representada no vídeo abaixo, a cantora Maysa.

E assim caminhamos para mais um período na história do país. Com o suicídio de Getúlio Vargas, o vice João Café Filho assume até que se tenha o próximo nome na presidência. Na música, a pré-bossa vai se modificando até finalmente se tornar bossa nova.

Não sei se teria o direito de voltar aqui depois de tanto tempo. A verdade é que a parceria entre o Críticas e Reflexões e o Letras Despidas foi se enfraquecendo ao longo do tempo. Talvez pela correria do dia-a-dia, tanto eu como o amigo Adriano ficamos sem tempo para postar em dois blog´s.

Contrariando a lógica do sistema capitalista que busca minar a nossa criatividade, fazendo de nós máquinas irracionais, resolvi voltar a contribuir. O convite está aberto para que o amigo Adriano volte a postar por também. Suas palavras são sábias e inteligentes.

Tentarei algo inédito. Antes contribuía com textos já postados no CR. Agora buscarei escrever coisas novas com exclusividade para o Letras Despidas. Acho que fazendo dessa forma a interação fica mais humana e não motora como antes.

Como assunto inicial gostaria de abordar a candidatura da ex-ministra e senadora Marina Silva. Venho lendo comentários sobre o assunto e percebo que a questão é polêmica. Os petistas tendem a atacá-la com voracidade. Muitos acreditam que possa roubar votos da Ministra Dilma e, assim, dar forças ao PSDB. Não sei, sinceramente, tem muita água para rolar. Confesso, e isso é uma opinião própria, que fiquei feliz com a possibilidade. Não dá para ficar mais no tradicional embate entre PT e PSDB. Tudo porque, diante dos fatos, já não consigo distinguir os dois partidos acima citados. Os dois possuem pouquíssimos pontos diferenciais na prática. E, na verdade, é a prática que nos interessa. Afinal, teoria não produz efeitos na vida de ninguém.

Pode ser que esteja errado, mas gostei da candidatura e se as conjunturas se mantiverem pretendo votar, como fiz nas duas eleições anteriores, em uma terceira opção no 1º turno. Estamos entrando na mesmice e isso é muito problemático quando queremos algo mais próximo da democracia.

Ítalo de Paula Pinto escreve para o Críticas e Reflexões

Heterocentrismo

É inegável que hoje existe uma movimentação maior em prol dos direitos dos gays, tal qual o movimento feminista no século passado. No entanto, há diversas pessoas que se opõem a esses movimentos, e uma delas é Rozângela Alves Justino, psicóloga que diz poder “curar homossexuais, fazendo-os ser heterossexuais”. Vou comentar algumas de suas falas na entrevista concedida à revista Veja (12/agosto):

Sobre o Conselho Federal de Psicologia (CFP), que a censurou publicamente: “Há no conselho muitos homossexuais, e eles estão deliberando em causa própria (…), esse conselho fez aliança com um movimento politicamente organizado que busca a heterodestruição e a desconstrução social através do movimento feminista e do movimento pró-homossexualista, formados por pessoas que trabalham contra as normas e valores sociais.”

Oras, supondo que o CFP seja mesmo composto por muitos homossexuais, estando eles contra a Rozângela isso é um indício de que nem todo gay concorda que ela possa sair aí afirmando que vai “tratar” os gays, como se fosse um transtorno psíquico. Pior é dizer que o movimento pró-homossexuais, junto com o feminista, pretende uma desconstrução social e heterodestruição. De onde ela tirou isso?

Que “normas e valores sociais” são esses? Papo de conservador, que fica se lamentando quando algum valor tradicional, que geralmente enaltece a família e os “bons costumes”, é ferido por mudanças. Muitas necessárias! Desconstrução social é ignorar que haja mulheres reivindicando seus direitos e, junto com os homossexuais, procurando um espaço maior na sociedade. Tratar de gays como se fossem todos doentes é homodestruição. Mas quando os gays exigem direitos e respeito não é que querem acabar com os heterossexuais.

Rozângela Alves Justino

Rozângela Alves Justino

Quando questionada se não seria discriminação sua maneira de pensar, ela responde fugindo: “Olha, eu também estou sendo discriminada. Estou sofrendo preconceito. Será que não precisaria haver mais aceitação da minha pessoa?”, em outro momento, diz que “cruel é uma profissional que quer ajudar e ser amordaçada.”

Não sou contra ela atender os seus pacientes. Se tem gente que quer mudar de sexo (como os transexuais), não teria problema em buscar um psicólogo para mudar de orientação sexual. O problema é ela generalizar e tratar todo o conjunto de homossexuais como doentes. Quando ela afirmou que o movimento pró-homossexual vai contra normas sociais, ela quis dizer isso, excluindo-o.

Após ser questionada se não seria discriminação contra os homossexuais que estão satisfeitos assim, ela responde: “Não há tratados científicos que digam que eles existem (…). A homossexualidade é algo que pode passar.” Como não? Já sabe-se de diversos casos de homossexualidade na natureza. Há estudos sobre o comportamento cerebral de gays. Eu acho possível mudar a orientação sexual, porque sendo um comportamento é bem possível que um tratamento psicólogo, como o proposto pela Rozângela, funcione.

Parece contraditório, mas ela diz que tem amor pelas ativistas pró-homossexuais e que eles a admiram. Mas não foi ela que disse que era um movimento pela desconstrução social? Enfim, para fechar a entrevista, ela diz uma das coisas mais absurdas que já li nos últimos tempos:

“O ativismo pró-homossexualismo está diretamente ligado ao nazismo (…) Todos os movimentos de desconstrução social estudaram o nazismo profundamente, porque compartilham um ideal de domínio político e econômico mundial. As políticas públicas pró-homossexualismo querem, por exemplo, criar uma nova raça e eliminar pessoas. Por que hoje um ovo de galinha vale mais do que um embrião humano? Por que se fala tanto em leis para assassinar crianças dentro do ventre da mãe? (…) Quanto mais práticas de liberação sexual, mais doenças sexualmente transmissíveis e mais gente morrendo.”

Isto é, existe uma conspiração gay de dominação político-econômica no mundo. Patético! E ainda diz que querem “criar uma nova raça”, como assim? A raça dos gays? Oras, não seria a própria humanidade tendo orientações sexuais diferentes? Ninguém tem a obrigação de querer ter filhos, logo, não tem sentido acusar os gays de querer “eliminar pessoas”. Ou ela estava se referindo a sair por aí matando pessoas?

Ainda aproveita para fazer propaganda contra as pesquisas com células-tronco embrionárias (usando um argumento pífio. Se alguém conseguir comprar um embrião humano, traga até mim que eu dou minha casa e minha família). Também prega contra o aborto, de uma maneira sentimental. Por fim, ainda diz que liberdade sexual é sinônima de gente morrendo. Não vou negar que existe uma relação entre transmissão de DSTs e liberação sexual, mas isso pode ser resolvido por outros meios, não necessariamente pelo fim das liberdades.

Enfim, foi muita bobagem para uma entrevista só…

(OBS: a doutora fez valer a Lei de Godwin: “Quando mais uma discussão se alonga, a probabilidade de comparações com o Hitler e o nazismo se aproxima de 100%”)

Nostalgias…

O passado que guardamos em nossas memórias, que às vezes resgatamos na forma de lembranças e recordações, é um tempo que realmente está no passado. Vou explicar.

Hoje, vi o meu passado no presente. Ele não estava na minha memória, mas estava na minha frente. Entrei no meu Orkut e, como nunca deletei os recados que fui recebendo desde que abri minha conta (no final de 2004), reli alguns recados daquela época.

Pessoas, muito amigas, me mandando recados carinhosos. Pessoas, que nem vejo mais hoje, mas que na época que me escreveram, eram presenças especiais (e realmente presentes).

Vi o meu passado, não como uma lembrança pretérita, mas como uma recordação viva. Em contraste com os recados de antigos amigos, estava a própria página do Orkut, minha foto de perfil recente, o aspecto sempre atual daquela janela, a transmissão instantânea de informação.

Isto cria uma espécie de um novo passado. Não aquele passado de fotografias, de textos escritos na infância, de objetos de valor sentimental. O novo passado contrasta o seu valor antigo com as coisas atuais. O passado existente no Orkut, uma ferramenta aparentemente sempre atual, figura-se no presente. E posso confessar: é angustiante.

É como um presente que não existe mais. Ora, mas um presente que já não mais existe é o passado! Porém, é diferente. É um presente fora do alcance, algo como uma manifestação sem a devida repercussão.

Para completar a combustão, ainda tinha colocado um chorinho para escutar, de Jacob do Bandolim, por definição melancólico.

Essas nostalgias não deveriam ser normais na minha idade… devo estar ficando velho?

Max Beckmann

Max Beckmann, um metafisico protagonista da realidade, expressava nos seus próprio termos, brutalmente, suavemente, delicadamente, pois cada objeto o exigia. Mas o objeto não impunha, Beckmann segurava o pincel.

Beckmann nasceu em Leipzig – Alemanha, em Fevereiro de 1884, de pais fazendeiros da área de Braunschweig. Depois do nascimento de Max eles desistiram da fazenda e se mudaram para Leipzig, onde seu pai, Carl, trabalhou com imóveis. O jovem Max preferiu desenhar do que estudar, e começou seus estudos formais em 1990 na Weimar Academia de Arte.

Em 1903 ele se casou com Minna Tube e os dois se mudaram pra Paris. Beckmann não foi muito influenciado por qualquer movimento da arte, ou trabalho de algum artista. Embora ele seja considerado um expressionista.

Max foi alistado na primeira guerra mundial, e escreveu como foi:

“Eu fui através dos campos para evitar ruas retas, junto com as linhas de fogo onde as pessoas estavam atirando numa colina de madeira pequena, que está agora coberta com cruzes de madeira e filas de túmulos ao invés de flores da primavera. Na minha esquerda os tiros tinham uma explosão aguda da infantaria, na minha direita dava para se ouvir tiros esporádicos de canhões travejando, e acima o céu estava claro e o sol radiante, brilhando acima de todo o espaço. Estava tão lindo lá fora que mesmo o não-sentido da morte enorme, a qual a música e escuto de novo e de novo, não conseguiam perturbar meu grande prazer!”

Beck 02

Beckmann passou os anos da primeira guerra mundial na Alemanha, proibido de exibir por causa do Hitler, mas seus quadros, embora rotulados como depravado pelo terceiro Reich, nunca foram confiscados ou destruídos. Ele foi alistado, mas rejeitado como inadequado (fora de forma). Depois da guerra ele foi para os EUA onde ele e sua mulher moraram em Missouri.

No final dos anos 40 ele se mudou para Manhattan, onde ele morreu com um ataque do coração no caminho para o museu Metropolitano, onde veria seu trabalho, em Dezembro de 1950.

Nada era tão importante para Max Beckmann quanto sua própria originalidade, como um ser humano, e como um artista. Ele era um homem profundamente espiritual, com suas próprias idéias.

“O maior mistério de todos é a realidade” Beckmann

Fonte: www.sohoart.com  Imagens: google images

A história de uma cidade ou de um país costuma inspirar muitos romances, ou ao menos servir de cenário para contos e memórias. É o caso de duas obras lançadas pela Cia das Letras: Anarquistas, graças a Deus (1979), de Zélia Gattai, e Leite Derramado (2009), de Chico Buarque.

Os dois livros recontam a história do Brasil do século XX por um prisma memorialista, bastante subjetivo, narrados em primeira pessoa pela própria autora quando pequena e por Eulálio d’Assumpção, um velho no leito de um hospital.

Anarquistas, graças a Deus

A primeira, nascida de um casal de imigrantes italianos recém-chegados à capital paulista, cresce em meio a uma São Paulo nos primórdios da urbanização, quando a Avenida Paulista era reduto de grandes casarões, os carros eram poucos e importados e o cinema era mudo.

Seu pai, Ernesto Gattai, de clara orientação anarquista, paradoxalmente chamava a propriedade privada de furto enquanto vivia em sua bela casa acoplada a seu trabalho, uma oficina mecânica. Sua esposa, Dona Angelina, também anarquista, escondia livros considerados subversivos e tinha fé em Deus, sendo filha de italianos cristãos.

Leite Derramado

Em Leite Derramado, o relato de Eulálio, mesclado a broncas às enfermeiras e falhas de memória, denuncia a decadência de uma família descendente de portugueses, partindo de um barão do Império a um garoto carioca que vira as costas para suas tradições familiares.

Como contraste, temos Matilde, que se revela uma figura misteriosa nas memórias do velho enfermo como uma paixão mal compreendida, se mostra uma incógnita e ao mesmo tempo um turbilhão na vida de Eulálio.

O resultado de ambas as obras: um final não muito feliz que abre as portas para o próprio tempo continuar a história. Em Anarquistas…, a casa da família Gattai, que chega a ser quase um protagonista, é substituída por um prédio comercial, deixando esquecidas as memórias de um período da história. No outro livro e em consonância com o primeiro, Eulálio narra a morte de um avô como se fosse a sua própria morte, enterrando também as memórias de uma família.

Avenida Paulista (fim da década de 20)

Avenida Paulista (fim da década de 20)

No final, tudo é leite derramado, do qual já não se pode mais beber, pois é passado. Os sonhos anarquistas dos imigrantes também são. O tempo é maior que as famílias, as memórias tendem a se perder ao decorrer das gerações e com elas as tradições. A história torna-se um marco finito na vida dos narradores, prova de nossa presença efêmera e pontual diante da imensidão do tempo.

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